Debate sobre vícios e virtudes
Com este plano de aula, a turma vai refletir sobre alguns mecanismos de funcionamento da sociedade moderna
Refletir sobre as questões éticas envolvidas na bajulação
Introdução
Nos dias de hoje, a ascensão social é encarada como uma coisa natural, que deve ser almejada por todos. Existem vários caminhos para o sucesso. Nem todos, porém, podem ser considerados éticos. Alguns privilegiam a esperteza e, às vezes, chegam ao desrespeito. A reportagem de VEJA ( ao final o texto da Veja) sobre o livro You're Too Kind, do jornalista americano Richard Stengel, levará a turma a reconhecer e criticar comportamentos que podem até trazer vantagens pessoais, mas desprezam princípios de justiça e sinceridade.
Atividades
1. Comece a aula perguntando aos alunos se eles conhecem pessoas que já foram favorecidas por ser bajuladoras, ou que costumam elogiar com segundas intenções. Qual a opinião deles sobre esse procedimento?
2. Peça que todos leiam o texto de VEJA, listando os comportamentos de puxa-sacos que são apresentados e também as reações e as conseqüências que essas atitudes podem trazer.
3. Divida a classe em grupos de três ou quatro estudantes. Cada equipe deve escolher um dos ardis apresentados no quadro a O Truque É Ser Discreto. Os alunos devem destacar as questões éticas presentes em cada item do texto. Em seguida, imaginar uma meta a ser alcançada e dois caminhos para se chegar lá: no primeiro, usando o truque de adulação para ter sucesso; no outro, respeitando princípios como justiça, igualdade e eqüidade. Por exemplo, se a equipe optou pelo item que diz "nunca seja sincero quando alguém pede sua opinião", os alunos podem imaginar uma cena em que uma pessoa pede um palpite a outra e obtém uma resposta bajuladora. Em seguida, eles devem apresentar a mesma situação, mas usando a franqueza. Essa atividade exigirá muita reflexão e criatividade da turma.
4. Mantendo os grupos, os alunos deverão se posicionar como a pessoa que está sendo adulada. Pergunte: como eles se sentiriam ao perceber que são elogiados com segundas intenções? O puxa-saco merece confiança?
5. Depois da apresentação dos casos, promova a seguinte discussão: quais as diferenças entre ser bajulador, sincero, educado, lisonjeiro ou diplomático. Muitas pessoas confundem sinceridade com grosseria; outras, educação com adulação. Que sutilezas de comportamento estão presentes em cada uma dessas características?
6. Para terminar, solicite uma redação sobre o tema. O trabalho poderá discorrer sobre a cultura da esperteza na sociedade e a busca do bem coletivo por meio da ética e da justiça.
Se o leitor espirrar,
saúde!
Puxar o saco do chefe, da namorada e da sogra já
foi feio no passado. Hoje a bajulação é reconhecida,
dá status e tem até manual de instrução
Alice Granato e Rachel Verano
Ilustrações Villa![]() |
Quem não gosta de receber um gordo elogio, daqueles que nos tornam pavões transbordantes de autoconfiança? E um agrado ou uma lembrancinha que funcionam como prova de que somos amados? São típicas massagens no ego que todo mundo adora. Para quem está do outro lado do rapapé, aquele que o dispara em direção ao chefe, à namorada ou à futura sogra, é a forma mais eficiente de cair nas graças do outro. Uma fórmula tão certeira que há quem a considere um dos mais eficientes motores de uma sociedade hierárquica, onde tudo tem seu valor de troca. Muito daquilo que todo mundo pensa sobre a sabujice e sempre teve vergonha de admitir publicamente está no livro You're Too Kind(Você é muito gentil), recém-lançado nos Estados Unidos. Escrito pelo jornalista Richard Stengel, editor da revista Time, é um verdadeiro – e talvez o primeiro – tratado sociológico da bajulação através dos tempos. O que Stengel percebeu é que a bajulação em seu sentido mais amplo é uma arte sutil. Seu único fundamento é a busca pelo resultado, mesmo que não seja de forma consciente e premeditada. Num puxa-saquismo exercido com perfeição, o exagero e a ânsia em agradar se confundem com espontaneidade e sinceridade. "A bajulação é um elogio estratégico, com propósito", disse Stengel a VEJA. "É tradicionalmente descrito como um elogio exagerado, mas eu a defino como um elogio que busca um resultado. Seja para ser mais querido, seja para ter um escritório com janela."
Uma coisa é certa: quem não bajula nos dias de hoje certamente está em posição de desvantagem. Essa máxima, na verdade, pode ser dita no tempo passado e, com certeza, será igualmente verdadeira no futuro. Ninguém põe em dúvida a importância da competência em um mercado de trabalho cada vez mais seletivo. É senso comum também que entre um competente chato e outro agradável o segundo fará carreira mais rápido. O presidente do Grupo Catho, Thomas Case, especializado em consultoria empresarial, diz que muitas demissões de executivos ocorrem devido à relação ruim com o chefe. "Nenhum competente chato vai longe", diz Case. "A bajulação feita da forma correta é muito sábia." Sabedoria nesse caso significa principalmente discrição e comedimento, já que elogios muito escancarados põem tudo a perder. Quando o chefe percebe que está sendo cortejado por um puxa-saco descarado, fica imediatamente irritado e a situação do pretendente, em vez de melhorar, pode até piorar. O especialista Stengel alerta que é preciso muito cuidado e sensibilidade para bajular um superior, já que implica um risco muito grande de ser desmascarado perante os colegas.
![]() |
| A bajulação na política é uma via de mão dupla. De um lado, os papagaios de pirata se avizinham do poder atrás de favores. De outro, os ocupantes de cargospúblicos, quando estão em maus lençóis, afagam o ego do povo |
O problema não é ser bajulador, mas ser um bajulador barato. A maneira mais correta de bajular o superior é de forma indireta. "O melhor caminho é fazer com que o chefe sinta que você está feliz de aprender com sua experiência, de que é importante para você os conhecimentos que ele tem", diz Case. A bajulação é sempre uma arte de sedução, em que é proibido cair no lugar-comum. É elogiar a beleza se a pessoa for inteligente e a inteligência se a pessoa for muito bonita. O jornalista americano interessou-se pelo tema ao concluir que não era grande coisa como bajulador. De tanto ver triunfar o puxa-saquismo descarado, ele se dispôs a olhar a bajulação do mesmo modo que um antropólogo examina qualquer aspecto da sociedade e rastreá-la ao longo da História. Não há, em princípio, nada de errado em dizer aos outros o que eles querem ouvir sobre si próprios. Faz parte do jogo social e é um dos motivos que fazem com que a lisonja funcione tão bem. "Se homens e mulheres querem achar que são um pouco mais brilhantes e atraentes do que realmente são, qual é o problema?", questiona Stengel. "Dizer isso a eles faz com que se sintam muito melhor."
![]() |
| Agradar à sogra é uma forma indireta de conquistar o amor da filha. Cuidado apenas com os exageros, que, além de expô-lo ao ridículo, podem pôr tudo a perder |
Há situações nas quais bajular é obrigatório. Trata-se de etiqueta social, do bom-tom e se confunde com o que chamamos de simpatia e boa educação. São casos em que não elogiar soa rude. Por exemplo: a noiva está sempre linda, o recém-nascido é sempre uma gracinha, o morto era ótima pessoa. Nil nisi bonum (dos mortos só se fala bem), diz o provérbio latino. Não é pecado exagerar no elogio se ambos os interlocutores se sentem bem com isso. O puxa-saquismo perde-se nas raízes da História. Um manual de etiqueta chamado As Instruções do Vizir Ptahhotep ensinava aos súditos no Egito antigo como se devia venerar o faraó em toda sua grandeza. Um egípcio só dirigia a palavra a um superior na escala social se fosse interpelado primeiro. Só ria depois de o superior ter sorrido. A primeira regra que um bajulador aprende na vida é que é preciso manter o chefe feliz e satisfeito. "A moderna sociologia qualifica isso como conformidade de opiniões", escreveu Stengel. O florescimento da idéia de individualidade durante a Renascença deu nova natureza à bajulação. Quando deixou de pensar em si próprio como um servo ou reles lacaio, o indivíduo deixou de bajular a instituição para se dedicar a puxar o saco da pessoa em comando. Uma vez que a mobilidade social se tornou um objetivo de vida, a bajulação perdeu seu estigma moral e se converteu em outra ferramenta de avanço social. Hoje, como todo mundo é obsessivamente preocupado com o modo com que as outras pessoas o vêem, as possibilidades de adulação subiram às nuvens. Puxar o saco, pode-se dizer, é a essência do utilitarismo moderno.
![]() |
| Há situações em que bajular é sinônimo de boa educação. Mortos são sempre ótimas pessoas e merecem elogios. Pelo menos no velório |
Antes de Adão e Eva já se bajulava. Nossos antepassados macacos passavam muito tempo paparicando os machos dominantes do bando. Entre os chimpanzés, que vivem dentro de uma comunidade organizada hierarquicamente, uma das atividades mais disputadas é a honra de fazer cafuné e coçar o pêlo do chefe. Alguns machos mais fracos chegam até a beijar seus pés e fazer oferendas com folhas e gravetos. É obvio que não é por amor, e sim uma forma de obter favores. O acesso às fêmeas controladas pelo mais forte, por exemplo. Os biólogos evolucionários definem como altruísmo recíproco a capacidade de maximizar as amizades e minimizar os antagonismos como uma forma de sobrevivência à seleção natural. Tanto para chimpanzés como para seres humanos a bajulação é uma maneira indireta de competição. Tem a vantagem de ser menos danosa à saúde e à integridade física do que a competição direta.
A história da bajulaçãoEgito
Grécia
Idade Média
Renascença
|
O truque é ser discreto
O americano Richard Stengel, especialista em puxa-saquismo, ensina alguns truques práticos que ajudam a exercer com requinte a arte do rapapé:
Veja 14/06/2000 |




O primeiro código de conduta
Os pais da
No tempo da vassalagem, os
Com a valorização do indivíduo
Nenhum comentário:
Postar um comentário