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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dupla jornada exige jogo de cintura do professor

A primeira lição que um professor aprende quando assume o compromisso de ministrar aulas para diferentes níveis de ensino  fundamental e médio, graduação e pós-graduação é que a didática em sala de aula muda completamente e a demora para assimilar a mudança pode deixá-lo vulnerável perante os alunos. Isso pode gerar problemas de parte a parte. Afinal, não são os alunos que sofrem com a adaptação dentro de sala de aula, os professores também devem enfrentar situações novas e saber lidar com elas para ter sucesso na tarefa lecionar em diferentes turmas.

Ricardo Ferreira Freitas
Foi o que viveu na prática o professor de graduação de Comunicação Social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Ricardo Ferreira Freitas, quando decidiu lecionar também na pós-graduação. Após passar um longo período como professor de graduação, Freitas estava acostumado com um perfil de aluno mais dependente e questionador, já que na graduação os alunos costumavam perguntar de tudo, sem medo de errar. Isso fazia com que sua aula fosse mais dinâmica.

Na pós-graduação, aconteceu justamente o contrário. Por isso, seu primeiro contato com a turma foi um choque. "Como a aula de mestrado é mais longa comparada à de graduação e o perfil da turma é mais quieto, às vezes, terminava de expor o tema e a turma ficava calada, sem debater o assunto. Isso fazia com que me sentisse falhando. Não sabia se meus alunos entendiam o conhecimento passado", lembra Freitas. O silêncio dos alunos da pós-graduação fez o professor perceber como é difícil encontrar uma maneira de instigar a participação em aula de estudantes com perfis tão diferentes.

Ele também notou que cada tipo de aluno reage de uma maneira diferente às ações do professor. "É difícil encontrar uma maneira única de despertar o interesse em estudantes de graduação e pós", afirma Freitas. Depois de algum tempo tentando técnicas variadas para fazer os alunos de pós-graduação serem mais ativos, Freitas descobriu uma saída: ter um arsenal teórico na ponta da língua para contextualizar em sala de aula. Hoje, ele diz que se fala sobre todos os assuntos programados para a aula e os alunos permanecem calados, recorre a outras leituras sobre temas correlatos para chamar a atenção deles, e isso tem funcionado.

Paulo da Cunha Filho
Ao contrário de Freitas, o professor de graduação e pós-graduação em Comunicação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Paulo Carneiro da Cunha Filho, afirma ter tido mais dificuldade para dar aulas na graduação. "A turma de graduação é maior e mais jovem. Eles perguntam de uma forma mais impulsiva, com maior naturalidade. Já na pós-graduação, as turmas são menores e o comportamento dos alunos é mais acadêmico. Eles sabem a hora de perguntar", compara.

Cunha Filho reclama da falta de treinamento didático para ministrar aulas nas universidades federais. "Nas federais, não paramos para aprimorar esta questão. Entramos na universidade com um bom entendimento do assunto de nossa formação, mas nem sempre sabemos o que fazer ao chegar numa sala de aula. Por mais que tenhamos comprado livros e estudado para aprender a ser didáticos, meu maior desafio foi encarar uma turma de graduação", admite Cunha Filho.

Mudanças no preparo das aulas

Mas não é só o perfil da turma que dificulta a vida dos professores com jornada dupla. O preparo do conteúdo teórico das aulas também rende muita preocupação. Segundo Freitas, aulas de mestrado são mais difíceis de serem planejadas por que implicam em debates. "Como a aula não é expositiva, modelo trabalhado na graduação, sua dinâmica é diferente. Há casos de aulas preparadas com um conteúdo certo, mas em que o tema pode gerar tanto debate que levo semanas para passar todo o conhecimento", conta. Com as disciplinas da graduação, ele crê ser mais fácil. "Quando o professor dá a mesma aula de graduação durante os semestres só é necessário atualizar o que está pronto. Por isso acho as aulas de mestrado mais difíceis de preparar", compara Freitas.

Por também reconhecer a dificuldade em preparar aulas para os dois perfis de turma, o professor da UFPE criou uma alternativa para se organizar melhor. A primeira medida foi não acumular aulas para as duas turmas no mesmo dia. "Procuro não misturar as aulas, exceto quando dou orientação para projetos de pesquisa. Considero válida a troca de informações de alunos da iniciação científica com estudantes do mestrado, pois terão a chance de debater informações", diz ele.

Jonny Carlos da Silva
Há, porém, quem concilie com facilidade a rotina de aulas de graduação e de pós. É o caso do professor de graduação e pós da área de Engenharia Mecânica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Jonny Carlos da Silva. Há 15 anos ele se divide entre uma turma e outra e diz que o planejamento de aulas não é tão diferente. O que muda é o grau de interatividade entre aluno e professor. "Tenho entre 8 e 11 alunos em minhas turmas de pós-graduação. Com esse número, temos uma boa interação, o que permite um ensino mais eficiente. Consigo ter mais tempo para ensinar e trocar idéias. Já nas turmas de graduação, dou aula para, em média, 30 alunos por sala. O grande contingente de estudantes dificulta a interação e uma troca de idéias", explica Silva.

Na opinião do professor da UFSC, a linguagem a ser utilizada em sala de aula também muda de acordo com o "receptor" da mensagem. "Utilizo um vocabulário mais sofisticado na pós, enquanto que na graduação opto por uma linguagem mais informal e atrativa. Na graduação, só posso incrementar o discurso com uma turma mais próxima da conclusão do curso". Freitas concorda com Silva quando diz que a linguagem da graduação só pode se aproximar da usada na pós nos semestres finais do curso. "No primeiro período da graduação não posso usar uma linguagem muito rebuscada, a turma irá demorar mais para compreender", diz.

Qual das turmas é melhor?

Além do fato de conseguir maior interação com alunos da pós-graduação, Silva afirma gostar mais das aulas com alunos mais velhos, por isso, reconhece sua preferência pelas turmas de pós. "Percebemos que quem cursa a pós tem mais interesse em buscar o aprendizado. Como dou aulas em disciplinas dos semestres finais da graduação, vejo alunos com mais interesse na conclusão do curso e no diploma", diz ele.

Embora reconheça as peculiaridades de cada turma, Freitas afirma gostar tanto das aulas de graduação como de pós. "Acredito que uma completa a outra. Tenho exemplos de comportamentos e formas de aula na graduação para passar aos alunos do mestrado, pois a maioria deles quer ser professor. Já na pós, trabalhamos reflexões, transmitidas posteriormente para os alunos da graduação", explica.

O professor de graduação de Ciências Sociais e de pós-graduação em Ciências Sociológicas da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Ricardo Oliveira, concorda com Freitas que a graduação complementa a pós-graduação e vice-versa. "Na graduação, o aluno é treinado para carreira escolhida. Ela é a introdução a sua profissão. Na pós, os alunos buscam o complemento de um ensino já adquirido", afirma o professor.

Cunha Filho acredita que a preferência entre uma turma e outra depende muito do perfil do professor e o que ele espera em sala de aula. Ele reforça que independentemente de para quem se dá aula é preciso ter talento para ser um bom docente. "É um equívoco achar que um professor exclusivo da pós esteja num nível acima se comparado a professores da graduação, ou a professores que se dividem entre as duas turmas. É muito mais enriquecedor trabalhar com as duas áreas, temos debates mais animados na graduação. O professor deve aproveitar a oportunidade de ter as duas turmas", acredita ele.

Um comentário:

Junior Silva disse...

Imagino que ser professor não seja fácil. Uma classe que se desgasta tanto, fisicamente e mentalmente e, mesmo assim, é mal remunerada. Realmente tem que ter jogo de cintura.

Beijo.