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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Uma mulher que ficou muda depois que o marido a abandonou...

Li no jornal a notícia sobre uma mulher que ficou muda depois que o marido a abandonou. Fiquei comovida pois ironicamente ela se chamava Bendita, era professora de Língua Portuguesa e Oratória. Ela só tinha uma arma: as palavras, e não pode usá-las.

Leio nas entrelinhas, a história que Bendita não podia contar: Foi com palavras que ela o seduziu, contando histórias de outros mundos, falando de emoções que ele jamais experimentara, descrevendo caminhos, lugares, instâncias que ele sequer supunha, apontando ângulos, frestas, prismas que ele não percebia, soprando em seus ouvidos desejos, ousadias, intimidades. 

Lapidou palavras para falar de felicidade, inventou palavras para falar de destino, traduziu palavras para falar de cumplicidade, enfeitou palavras para falar de amor. Também aprendeu muitas palavras com ele. Todo um mundo de novas palavras e significados. Conversavam sobre tudo. Livros abertos. Trocavam confidências. Íntimos. Aconselhavam-se, absolviam-se. Amigos. Falavam a mesma língua. Parceiros. Escreveram juntos o mesmo futuro, confundiram os próprios sonhos. Casal.

Ela não percebeu nenhum sinal, nem viu o silêncio chegando, entrando em sua casa. Talvez ela estivesse muito ocupada, falando. Talvez ela estivesse muito acomodada, em confiança cega, seguindo as regras do jogo e uma rotina sem graça. Talvez ele já estivesse longe,isolado numa torre. Talvez o amor só existisse nas palavras gastas. 

Foi tudo rápido e silencioso.

Um dia ele acordou antes dela, beijou-lhe a testa, na seqüência, amordaçou-a com um pano de prato e sem mais, saiu de casa, para sempre.

Ela só tinha uma arma: as palavras e ele, na sua covardia, saiu sem nada dizer nem nada querer ouvir. Surdo-mudo-blindado. Bendita, neutralizada e impotente, emudeceu. 

(Talvez ele não tivesse o que falar por que há coisas indizíveis. Talvez nada do que fosse dito mudasse o rumo das coisas. Talvez o silêncio tenha salvaguardado algum dos mil elos rompidos. Talvez ela tenha se tornado repulsiva. Talvez ele tenha outra família. Talvez ela estivesse gorda. Talvez ele fosse uma invenção. Talvez ela não o conhecesse. Talvez ele esteja doente. Talvez ela esteja louca. Talvez ele fale para os amigos que não contou a verdade para poupá-la.. Talvez ela não agüentasse a verdade. Talvez fosse tudo mentira.).

 Hoje todas as palavras e todos os talvezes, porquês e ses moram trancados em sua cabeça. Martelam, gritam, reverberam num ciclo infernal. 

Penso nessa mulher, amordaçada, olhando os olhos vazios do companheiro, desconhecendo tudo que sabia, desconstruindo certezas, incapaz de traduzir o estranhamento. Penso nela, a quem foi negado respeito e lealdade além de palavras. Escuto seu silêncio.  

Penso em você, Bendita, e em todas as mulheres que assistiram em silêncio suas vidas desmoronarem.  Sabe, um dia você desistirá de entender palavras mortas, os talvezes não farão diferença, os porquês não machucarão mais. Um dia você acordará falando. E outras palavras sairão libertas, de dentro de você, numa correria louca, numa algazarra de passarinho, num fluxo alegre cristalino de corredeira em direção ao mar. Sua voz soará imensa e desassombrada. E as palavras, suas amigas, serão novas, frescas, poderosas: só suas e com elas, você reescreverá a sua história. 
Bendita, seja você!

Um comentário:

Jéssika Dias disse...

Oi Xêninha, nossa, que história...
Espero que o tempo a faça entender que as palavras que saem da boca dela são mais importantes que o silêncio que a atormenta...
Nem sei bem o que falar...
Beijos