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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Discriminação sexual, uma prática ainda comum...



Uma prova de que o aborto e o infanticídio seletivo de meninas está muito difundido em alguns países asiáticos onde há preferência por filhos homens é a recente declaração da presidente da Associação de Médicos do Paquistão, dra. Yasmin Rashid, que conclamou seus colegas a não colaborar com tais práticas. A médica, que trabalha em um laboratório de diagnóstico por ultra-som, afirmou que "é uma pena que tantas clínicas de ecografia estejam envolvidas neste negócio sujo. Todo o pessoal do nosso laboratório está obrigado sob juramento a não revelar o sexo do bebê, sejam quais foram as circunstâncias. Todos os dias vêm a nós mulheres de todas as classes sociais querendo abortar porque o exame mostra que o feto é uma menina." Outras vozes também se manifestaram no Ocidente, onde semelhante discriminação sexual é impensável.

Impensável? A fecundação in vitro transformou em normais e aceitáveis práticas que pareciam inconcebíveis. A escolha sexual é uma delas. Até agora, era considerada imoral nos Estados Unidos pela Associação Norte-Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM), a organização que define os parâmetros éticos para a fecundação artificial seguidos pela maioria das clínicas especializadas no país. Em um pronunciamento público realizado no fim de abril, a entidade mudou de opinião: o diagnóstico pré-implantatório do sexo é eticamente admissível, diz, em determinados casos. Em concreto, vale se o casal quer "variedade de gêneros" em sua prole: temos um menino e agora queremos uma menina, ou vice-versa.

Não faz sentido, mas tampouco é surpreendente. Na fecundação artificial, desde o começo os critérios de moralidade se acomodaram facilmente ao desejo da clientela.

Foi Norbert Gleicher, dono de uma rede de clínicas, quem pediu à ASRM que revisse sua opinião. Alegava que a ASRM já havia aceito a seleção de esperma para conseguir o mesmo efeito. Então, perguntava por que não se poderia aplicar um procedimento ainda mais eficaz. E mais, diz, "seria anti-ético oferecer um método inferior se existe um superior."

Mas, assim como o aborto seletivo, o diagnóstico pré-implantatório do sexo é feito para descartar os exemplares do sexo não-desejado. Portanto, se parece muito mais com a execrável prática asiática que com a seleção de esperma, pois esta separa os espermatozóides portadores do cromossomos X ou Y.

Qual será o próximo passo? Quando entendermos mais de genética, vamos rejeitar as crianças que não possuam inteligência elevada ou o cabelo e os olhos da cor desejada? É bem provável: não se vê como seria possível evitar esta espiral do desejo se a fecundação artificial continuar em prática. O assombroso é que os que se dedicam a este trabalho não se dêem conta disso. E ainda, os pais, que assistem chocados aos noticiários da TV, onde se fala da seleção em países como China e India, são os mesmos que vão aos laboratórios "escolherem" implantar um feto masculino ou feminino.

PARABÉNS… A você, LEITOR, POR ESTAR VIVO…


Ao chegar ao Hospital de Aveiro, encontramos com um enorme cartaz com estas duas frases: 

«Em 2008, nasceram, no nosso hospital, 1418 bebês. A todos e aos que já nasceram em 2009…Felicidades.»

Entre as duas frases, todo o espaço central do cartaz é preenchido com os primeiros nomes de todos os bebês que nasceram em cada mês do ano. É importante e significativo este pormenor dos nomes. Aqueles bebês não são uma massa humana indiferenciada. Cada bebê é um novo cidadão, uma nova pessoa. Cada um daqueles bebês é único, valioso e insubstituível na sua família e como membro integrante da grande família humana. É louvável que o Hospital de Aveiro mostre, assim, à sua cidade, como está ao serviço da vida. 

De fato, parabéns à vida que cresce, nasce e se desenvolve. Parabéns, porque é sempre um acontecimento único e irrepetível no longo caminho do Universo e da Humanidade. Para chegar onde cada bebê chega, quando nasce, já teve que superar trilhões de desafios e, antes dele, os seus pais, avós, bisavós, trisavós, tetravós, recuando na imensa cadeia até aos primórdios da Humanidade e da Vida, tiveram que superar outro tanto. 

Um livro muito premiado (Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson, prêmio Aventis 2004 para melhor obra de divulgação científica) começa, precisamente, assim: 

«Bem-vindo. E parabéns. Ainda bem que chegou até aqui. (…) Em primeiro lugar, para que o leitor esteja aqui agora, foi preciso que trilhões de átomos errantes tenham conseguido juntar-se, numa dança misteriosamente coordenada, de forma a criá-lo a si. Trata-se de uma combinação tão única e especializada que nunca foi feita antes e só vai existir desta vez. Durante muitos anos futuros (esperemos), estas partículas minúsculas irão dedicar-se sem qualquer queixume aos biliões de hábeis e articulados esforços necessários para o manter intacto e deixá-lo desfrutar da experiência supremamente agradável, mas geralmente subestimada, a que chamamos existência.» 

Vale a pena transcrever mais um pouco e entrever algo da imensidade de acontecimentos que em momentos precisos e com as condições exatas foram necessários para construir toda a imensa cadeia que acabou por chegar àquilo que cada um de nós é. 

«Mas o fato de sermos formados por átomos e de eles se manterem juntos com tal boa vontade, só constitui parte do que o trouxe até aqui. Para estar aqui agora, no século XXI, vivo e com inteligência suficiente para o constatar, o leitor também teve de ser bafejado por uma extraordinária cadeia de felizes acontecimentos biológicos. A sobrevivência na Terra é um assunto complicadíssimo. Dos bilhões e bilhões de espécies de seres vivos que existiram desde o raiar dos tempos, a maior parte - 99,99 por cento – já não anda por cá. O fato é que a vida na Terra não só é breve como também de uma fragilidade deprimente. Uma característica curiosa da nossa existência é que vivemos num planeta exímio em promover a vida, mas que ainda o é mais em acabar com ela. (…)

O leitor não só teve a sorte de estar ligado desde tempos imemoriais a uma linha evolucionária beneficiada como também teve uma sorte extraordinária, diria mesmo milagrosa, com os antepassados que lhe calharam. Pense só que durante um período de 3,8 biliões de anos, período anterior à formação das montanhas, dos rios e oceanos da Terra, cada um dos seus antepassados de ambos os lados foi suficientemente atraente para encontrar um companheiro, teve a saúde necessária para se reproduzir, e foi suficientemente bafejado pelo destino e pelas circunstâncias para viver o tempo necessário para o fazer. Nenhum dos antepassados necessários à sua existência foi esmagado, devorado, afogado, morreu de fome, foi atacado ferozmente, ferido mortalmente, ou de alguma forma desviado da missão vital de deixar uma minúscula carga de material genético ao parceiro certo no momento exacto, de forma a perpetuar a única sequência possível de combinações hereditárias que, eventualmente, espantosamente, e com uma rapidez incrível, resultariam na sua pessoa.»

Na verdade, não é nada fácil ter chegado até aqui. E temos mais sorte ainda: somos os únicos com capacidade de apreciar a vida e até de a melhorar. E chegamos a esta posição privilegiadíssima com uma enorme rapidez.«Os seres humanos modernos em termos de comportamento – ou seja, pessoas capazes de falar, de criar arte e organizar atividades complexas – só existem há um período correspondente a 0,0001 por cento da história da Terra.»

Somos ainda primitivos, estamos no princípio de quase tudo, mas já somos capazes de vislumbrar muito do que é certo e errado, na nossa curta História.

Sabemos que Hitler e Stalin erraram profundamente com o seu projeto de sociedade ideal que excluía milhões de outros seres humanos. Sabemos que os terroristas e os senhores da guerra estão errados. Sabemos que as salas da morte na China para crianças e deficientes são um atentado à dignidade humana.

Sentimo-nos orgulhosos por pertencermos a um país que desde o século XIX aboliu a escravatura e a pena de morte; consideramos este fato uma marca de civilização digna da nossa auto-estima como povo. Sabemos que atentar contra a diversidade da vida na Terra, caçar animais em extinção ou destruir ninhos de cegonhas está errado. Sabemos que poluir os rios e os mares, com todas as implicações que isso tem para a vida aquática, está errado. 

Sabemos, com toda a certeza, que só um profundo respeito pela Vida em todas as suas formas, e com especial reverência para a vida humana, é digno de nós.


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