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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Eles sobreviveram ao inferno

Os nomes são fictícios. As histórias de Luísa e Marcelo não. Nunca se conheceram e sempre viveram em bairros distantes um do outro. Há cerca de um mês, ambos aos 16, tornaram-se, no entanto, pontos idênticos na estatística de 100 crianças e adolescentes que neste ano desapareceram nas ruas. Tiveram a sorte de integrar a parcela dos 80% localizados. Vivos. Na Zona Sul, viveram pesadelos urbanos. Luísa escapou de 23 dias de exploração sexual em apartamento-cárcere na orla e Marcelo, de cativeiro de uma semana inteira, sob poder do tráfico, em favela com vista para o mar.

Luísa e Marcelo agora vivem na Zona Oeste, livres e em casa, embora as mães constatem que ainda acordam, no meio da noite, suados e com medo, reféns de lembranças cruéis e de ameaças de morte.

Luísa sofreu estupro e consumo forçado de drogas e bebidas. Aplicaram mega hair nos cabelos da menina para disfarçar a sua idade na noite, em uma boate na orla. Grita de noite o nome de uma menina de oito anos, prostituída no cárcere, viciada em crack. Marcelo nunca contou para ninguém, nem para a mãe, detalhes da tortura física.

Registros do SOS Crianças

Desaparecidas, da Fundação da Infância e Juventude (FIA), Luísa e Marcelo já guardavam em comum com os 75% de jovens que somem: na verdade, fugindo de casas e pais pobres e, por vezes, violentos.

Filha de pais amorosos, porém rígidos, Luísa queria se sentir mais livre e ter dinheiro quando se deixou seduzir pelo convite de uma amiga para entrar em vida supostamente mais fácil do que a de sempre. O caminho parecia aceitável diante de dez anos de abuso sexual, desde os 5, por parente próximo, acima de suspeita.

Marcelo, desde pequeno, parecia revoltado com a ausência do pai, viciado em drogas, desaparecido ele próprio desde quando o menino tinha 6. Ainda bem criança, aprendeu a furtar, a invadir casas de vizinhos, com amigos, para lanches fortuitos. Queria ter o que não podia. Levou muitas surras e parecia ter tomado juízo quando decidiu ser mototaxista. A moto era irregular, pertencia a um traficante e acabou apreendida. Teve de trabalhar na boca-de-fumo para pagar o prejuízo de R$ 2 mil. A mãe de Marcelo o arrancou da boca. Então, veio o espancamento pesado, a ameaça de morte, a sobrevivência por um triz. Marcelo ficou 12 dias sem dar notícia para a mãe insone e arrependida. Perambulou pelas ruas, dormiu em calçadas, sentiu fome.

Dezembro chegou e já haviam cessado os temores mais terríveis de Letícia, mãe de Luísa, e de Maria, mãe de Marcelo. E se iniciaram outros, relacionados ao desafio de hoje, da reconstrução de suas famílias, e do medo por saber que os criminosos atuam em rede, sempre à espreita. A vida nunca mais será a mesma. Ela não sai de casa nem para ir à escola. Ele se mudou, com toda a família, para bem longe da praia.

Marcelo quase não abre a boca. Luísa, a pedido do jornal, criou coragem para deixar ao leitor esta mensagem: “Não confie em todo mundo. Desejo refazer minha vida com pessoas melhores. Estudar, quem sabe até fazer um curso de assistente social, ter oportunidade é o que eu e os jovens como eu precisamos. De verdade. Espalhar cursos profissionalizantes, com estágios que paguem aos jovens uma quantia, e que existam para todos, em todos os bairros, clubes comunitários que acolham da criança até o idoso. Que as pessoas não discriminem as pessoas pelo que elas passam ou passaram. Quero poder sair nas ruas sem medo e poder voltar pra casa. Ser respeitada”.

Perfil no Brasil é de crianças pobres. Nos EUA, mudou

A maioria é pobre entre as crianças e adolescentes desaparecidos no Rio, no Brasil. Nos Estados Unidos, também já foi assim. Mas as estatísticas comprovam que as coisas têm mudado muito no país da América do Norte, onde atualmente 1,2 milhão de jovens com menos de 18 anos fogem de casa a cada ano – 60% deles filhos da classe média. Há motivos para que se tema haver no Brasil fenômeno semelhante. É o que suspeita o antropólogo Benedito dos Santos, no Rio para o II Encontro da Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (Redesap).

Coordenador da rede e formulador de políticas para a Infância e Adolescência da Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal, Benedito é autor da tese que garantiu o seu doutorado em Berkeley, intitulada Crianças Ingovernáveis, e que encontrou semelhanças entre os jovens de Nova Iorque e de São Paulo. Como no Brasil, segundo ele, nos Estados Unidos – onde a fuga de menores de 18 anos é crime – jovens que fogem são explorados em redes de drogas e prostituição.

– Há uma expectativa de que esse problema do desaparecimento de crianças avance na classe média. Nos Estados Unidos o problema também começou entre os pobres. mas se descolou da pobreza. A fuga tem menos a ver com a questão econômica e mais a ver com um conflito criado pelo fato de as famílias terem mudado completamente de configuração, deixando de ser biológicas para ser determinadas por escolhas, mas com padrões de conduta tradicionais. Isso tem gerado uma tensão nas relações dentro da família.

Pais se perguntam onde foi que erraram. E descobrem

Maria não sabe onde errou na criação de Marcelo. Quantas vezes pensou que ele próprio errava tanto na vida por “sem-vergonhice”. E tantas foram a surras praticadas com suas mãos rudes de diarista, a pele áspera e marcada tanto por desinfetantes e detergentes – empregados na limpeza de casas de famílias – como por latas catadas em lixões para não deixar faltar aos três filhos ao menos casa, roupa e comida. Maria cala, de repente, e decide voltar ao passado para entender o presente:

– Cheguei de Minas aos 21 anos para morar em casa de família. Só fui ter a minha própria casa aos 30. Meu marido bebia, usava drogas e arrumava confusão. Ele é um desaparecido desde quando o Marcelo tinha 6. Para trabalhar, fiquei longe demais dos meus filhos. O meu menino do meio parece que foi o mais atingido. Bati muito nele, ele calado. Só reclama que não o batizei. Acho que não encontrei os padrinhos certos ainda.

Mãe de Luísa, a supervisora de vendas Letícia também sempre sonhou em ter a sua própria família. Havia sofrido muito na infância com a mãe dividida entre ela, o padrasto e seus meio-irmãos, privilegiados em todos os sentidos:

– Acabei protegendo demais. Mas a Luísa sempre foi a mais retraída, calada, depressiva. Não tínhamos idéia de que ela sofria abusos sexuais de alguém da própria família. Fiquei 22 noites sem dormir à procura de minha filha. A sociedade precisa acordar. Não é só a minha filha. Crianças e adolescentes não são mercadoria. São seres humanos e não pedaços de carne. Precisam ser amados e respeitados.

FONTE: JB ONLINE

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