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segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Mala Nossa De Cada Dia



Vamos supor que a gente quando nasce recebe uma mala de presente. Uma mala elástica que começa pequena e vai crescendo com o tempo. Mas nada impede que ela encolha também.

Nessa mala a gente vai acumulando coisas, lembranças, hábitos, relações e carregando conosco pra todo canto. Tem certos dias em que a gente se sente tão cansado... Mas nem se dá conta do peso de nossa mala. E continuamos pesados, enrijecidos, cansados, carregando a bendita mala pra onde quer que a gente vá.

Há lembranças que nos são muito caras, há outras que nos fazem bem, umas que a gente nem sabe bem que estão ali porque já caíram no esquecimento, outras nos incomodam e assim todos vão dando forma e consistência à mala.

Alguns podem estar se perguntando agora: mas que mala é essa? Eu não costumo carregar nem sacola de supermercado, quanto mais mala! E é notório salientar e informar que carregamos sim. Carregamos sempre, onde quer que a gente vá.

A mala é como uma representação de nós mesmos, da nossa história. Na verdade muito pouco do que contém foi colocado por nós, ao contrário, são as outras pessoas, as nossas relações que se encarregaram de fornecer seu conteúdo.

Por exemplo, quando queremos aprender a ser mãe ou pai, onde vamos buscar conhecimento? Na filha ou filho que fomos um dia. Naquela relação muitas vezes esquecida formatou-se em na gente a mãe ou o pai que conseguimos ser. Muitos exemplos são os que desejamos seguir, mas quantas vezes nos surpreendemos repetindo exatamente os comportamentos que mais abominávamos... E nem sempre percebendo esta repetição a gente segue repetindo, e repetindo, e repetindo...

E exemplos, existiram aos montes ao longo da vida: familiares, de amigos, desafetos, livros, notícias do jornal, professores, estranhos, enfim bebemos de tantas fontes que não nos é possível enumerar. Isso nos permite uma riqueza de experiências tão grande, abre tantas possibilidades... Então qual é o problema?

Não sabemos exatamente se é um problema ou apenas uma questão, mas importa saber como estamos lidando com o peso da mala, como estamos repetindo os registros acumulados. Na verdade seguindo o princípio lógico da mala, devemos entender que funciona assim:
quanto mais difícil carregar a pesada mala, quanto mais repetimos os mesmos repertórios, maior talvez seja o peso inútil que ela contém.

O ideal seria que de tempos em tempos fizéssemos uma faxina na mala. Devemos abrir a dita cuja mala com cautela (deve-se lembrar que muitos de nossos maiores tesouros estão lá dentro e não podemos colocá-los em risco) e olhássemos seu conteúdo de uma forma crítica, analisando, questionando e por fim decidindo em mantê-lo ali ou dar-lhe outro destino.

Talvez valha a pena perguntar: será que o comportamento de se chatear e se fechar no quarto, adquirido em muitos casos quando estávamos na tenra idade da infância, e minha/nossas mães vinham nos adular, nos pôr no colo, ainda serve para as contrariedades da fase adulta? Haveria uma forma melhor de lidar com isso? Afinal hoje não tem mais ninguém disposto a nos dar colo nessa situação! Quando nossos pais nos ensinaram que nós tínhamos que comer até o último grão de comida do prato que eles serviam, pensando na fome da África, onde à época pesávamos em torno de 25 kg. Será aceitável hoje, aonde em alguns casos chega a 120 kg ou mais, ainda temos que seguir a mesma regra ou será melhor aprender a respeitarmos o limite do nosso estômago?

Nossos pais eram nossos ídolos maiores e devemos seguir seus exemplos, mas será que todas as suas características nos interessam? E quando eles gritavam tanto que a vizinhança inteira escutavam nos deixando envergonhados? E quando eles bebiam além da conta falando pelos cotovelos? Quando deixavam nossas mães e os irmãos preocupados por ficarem fora de casa tanto tempo sem dar notícias? Gostamos muito de seu bom humor, admiramos sua honestidade, seu carinho pela família, mas não somos obrigados a ficar com o pacote inteiro. Os gritos, porres e ausências não devemos exatamente repetir. Devemos jogar pra fora da nossa mala sem que isso represente um desrespeito a nossos pais. Representa na verdade o respeito a nós mesmo.

E neste ponto devemos nos perguntar: será que ao longo da vida a gente se questiona quanto a nossas características? Será que costumamos refletir sobre nossos atos ou vamos no “piloto automático”, atuando sem pensar, repetindo coisas de que nem gostamos?

A faxina na mala não é uma tarefa fácil, não é nem rápida ou previsível, no meio do caminho podemos nos deparar com guardados tão arraigados que não saem de lá nas primeiras tentativas de expulsão, haja questionamentos, reforma íntima, força de vontade! Neste percurso é sempre bom contar com alguma ajuda, seja de uma pessoa querida, um mentor espiritual ou mesmo um terapeuta profissional. Isso ajuda a evitar armadilhas, como nos depararmos com conteúdos que estão na mala “porque sempre estiveram e tem que ser assim”, mascarando toda a dor que podemos sentir ao remexer neles e impedindo que sejam digeridos da melhor forma.

Sem falar no medo do desconhecido. Alguns casos, como de uma pessoa que diz preferir um problema conhecido a se aventurar a ser feliz sem ter certeza. Aí cabe uma pergunta: e
que certeza nós temos nessa vida? Tudo é sempre tão provisório, tão efêmero, que qualquer segurança, garantia, são enganosas. Neste sentido, feliz de quem está “desenganado”, ou seja, já não tem a ilusão da imortalidade e pode simplesmente viver cada momento como deseja, já que não haverá tantos momentos disponíveis assim.

Alguns podem estar pensando: muito bom, parece ótimo, mas e se eu começar a jogar tudo o que tenho na minha mala fora, eu fico com o que? E segundo a lógica da mala é impossível jogar todo o conteúdo da mala fora, porque tem muita coisa importante dentro dela e ela nos constitui enquanto pessoas. Não dá pra tirar algo sem ter outra coisa a nos constituir, a diferença é que o que tiramos nos foi dado por outrem e o que colocamos tem mais a “nossa cara”, “nosso jeito”, portanto nos habilita um pouco mais a ser felizes, a ousar, a explorar possibilidades.

E o que os outros vão pensar? É óbvio que os outros pensam de qualquer jeito, quer mantenhamos a mala intacta, quer façamos mudanças, sempre haverá quem admire e quem recrimine. Valerá a pena pautar as nossas vidas sempre pelo que os outros pensam? Será que nossos próprios julgamentos não são suficientes para decidir entre o que é aceitável, desejável, bem vindo ou não?

Durante a infância muitas vezes os adultos tentaram nos controlar com esta entidade “os outros”, no sentido de demonstrar que ainda somos muito incompetentes para tomar decisões sobre nossas vidas, mesmo que a decisão seja usar uma camiseta de malha com gravata, bermuda com cinto, meião de jogador de futebol e botas. O que os outros vão pensar? Há quem ache feio, há quem ache ridículo, há quem se pergunte se essa criatura não tem mãe e também quem se pergunte por que nunca tentou um visual tão inusitado e "fashion"! Qual o problema? Sempre vão pensar alguma coisa, mas devemos ousar em afirmar que
“os outros” prestam muito menos atenção em nós do que nosso narcisismo imagina e também que não somos tão incompetentes assim para decidir, mesmo quando ainda tenhamos pouca idade. Talvez seja mais cômodo para os adultos manobrar com nossa vontade usando esta estratégia quando somos crianças, o que não significa em absoluto que ela seja aceitável ainda hoje, quando somos nós os adultos.

Na vida costuma ser mais bem sucedido, mais feliz, quem é mais capaz de flexibilidade, quem melhor se adapta às situações. A sugestão é: se nossas malas nos deixam “engessados”, tolhendo nossos movimentos, dificultando ou impedindo que a gente se mexa, que façamos diferente, experimentemos fazer a faxina! Talvez vá ficando mais fácil carregá-la, talvez a gente se enamore da idéia de fazer faxina e adotemos a limpeza esporádica, talvez a gente goste tanto da nova mala que desenvolva até uma coreografia mostrando formas alternativas de se carregar uma mala, mas não deixemos de experimentar possibilidades. Elas são tantas...

Andréa Bragança

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