Há cenas que permanecem sempre gravadas dentro de nós. Passam dias, passam meses, passam anos e lá estão elas, vivas e torturantes. Principalmente quando se trata de crianças ou de jovens que ainda desconhecem como é mau o mundo em que vivemos.
Como esquecer a figurinha daquela criança nua, correndo apavorada entre bombas de napalm que explodiam, às dezenas, numa aldeia do Vietnã?
Como esquecer a coragem daquele jovem chinês vestido de branco, desarmado, diante de um tanque de guerra numa Praça de Pequim como se dissesse: “Passem por cima de mim, já que humanos vocês não são!?”
Como esquecer? É tudo bem emblemático, uma jovem estudante de filosofia morre com um tiro no peito durante manifestação contra a fraude eleitoral que mantém um homem deplorável no comando de importante país do Oriente Médio. O nome dela pra completar significa ‘voz’ ou ‘chamado’ em persa e é verbete na Wikipedia. Tudo foi filmado e devidamente postado. A figura daquela jovem iraniana de apenas dezesseis anos, que há poucos dias foi assassinada numa cidade do Irã? A cena foi filmada por um amigo de Neda e colocada clandestinamente no You Tube. O filme nos mostra o corpo de Neda Soltani estirado no asfalto com um tiro no peito, disparado por um “devoto” do presidente Mahmoud Ahmadinejad, do alto de um prédio. O filme nos mostra Neda deitada de lado. Sangrando. Mostra seus olhos voltando-se para cima e para o lado, enquanto seus amigos gritam “Neda, Neda”. Tudo
O número dos opressores cresce como cogumelos. Chegam distribuindo bombons, cestas básicas e camisinhas. Seu amor pelo povo provoca lágrimas nos mal-informados. Mostram-se humanitários. Na África, na América, na Ásia, na Europa. Estão por toda parte. O governo chinês, só em 2008, condenou quase oito mil à pena de morte. Agora, dizem os jornais de hoje, decidiu por um método menos doloroso: não mais à bala, que era paga pela família, mas a injeção letal. O condenado não mais sente dor. Morre suavemente, graças à benevolência e compreensão do ditador.
Lembro-me de um slogan do Fascismo: “Il Duce a sempre raggione” (O Chefe tem sempre razão). É isso aí, quem tem o poder (seja político, econômico ou religioso), tem sempre razão. Quanto a nós, resta-nos sonhar. “Los sueños son sueños”. Ou, como dizia Shakespeare: “Men are men”. Os homens são sempre os homens. Nada mais.
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