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Estude! Saber é o maior diferencial que existe!

terça-feira, 30 de junho de 2009

O catador de conquistas

"Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo"...
( Fernando Pessoa)


Que história fantástica de superação...

Ter o nome na lista de aprovados do vestibular é uma emoção forte para qualquer estudante. Mas para o adolescente Klayton Rodrigues de Souza, um dos 3.050 aprovados no último concurso da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a conquista teve um sabor muito mais especial.

Catador de papel como a mãe, o garoto aprendeu a ler sozinho, aos cinco anos de idade, começou a escrever poesias aos 11 e vive agora, aos 17, a expectativa de iniciar o curso de enfermagem após ter passado no primeiro vestibular que prestou.

“Eu resolvi fazer enfermagem porque quero poder ajudar as pessoas. A saúde pública é muito precária, o atendimento nem sempre é bom e eu quero ajudar. Sei que não vou mudar as coisas de uma hora para outra, mas posso fazer algo para melhorar as vidas das pessoas”, afirma.

Klayton é assim. Espontâneo, afetuoso, carismático. Impossível não se encantar com o menino que vive no jardim Santa Fé, bairro pobre da zona leste, e até os 14 anos dividia seu tempo entre estudar e catar papel nas ruas com a mãe, a grande responsável por fazê-lo aprender que a vida só se transforma com estudos. Detalhe: a sábia Bernadete Rodrigues de Souza, 39 anos, não sabe ler nem escrever.

“Eu coloquei o estudo como meta para ter um futuro melhor. A partir da 4a série, minha mãe me disse: ‘a mãe não pode dar tudo para você que ela queria, mas vou te dar estudo e com estudo você vai mudar sua vida”, lembra o garoto.

Klayton levou a sério os ensinamentos de Bernadete e fez questão de agarrar todas as oportunidades que apareciam para ele. A catadora de papel trazia para o filho os livros que encontrava no trabalho diário pelas ruas de Londrina. Hoje o jovem tem mais de 80.

“Eram livros de poesia, didáticos, de história em geral. Eu lia para ela. Os que eu mais gostava eram os de poesia e com o tempo eu comecei a achar que eu podia escrevê-las”, conta Klayton.

Visibilidade

A partir da primeira poesia, escrita aos 11 anos, ele não parou mais. O talento deu visibilidade ao menino. Foram feitas muitas reportagens contando sua história. Uma delas chamou a atenção da equipe pedagógica do Colégio Londrinense, que lhe ofereceu uma bolsa de estudos. Era mais uma oportunidade que Klayton não deixaria passar. Mas ele confessa: ficou temeroso.

“Eu adorava a escola onde eu estudava [Escola Municipal Célia Moraes de Oliveira], era difícil sair de lá”, conta. “Eu fiquei com medo de passar a viver em uma outra realidade completamente diferente. Tinha medo de sofrer preconceito, de ser rejeitado. A idéia que eu fazia das pessoas que tinham dinheiro era de que não ligavam para os outros e de que eram arrogantes.”

O jovem conta que no primeiro ano foi difícil, mas teve muito apoio dos profissionais do Colégio Londrinense. Lá, conquistou excelentes amigos, que provaram o valor da amizade ao lhe pagar a inscrição do vestibular depois que ele perdeu o prazo para pedir isenção. “Eles disseram: ‘nossa parte estamos fazendo’. E eu disse que eu faria a minha, ia passar.”

“Tinha colocado na minha cabeça que não ia esconder quem eu era”

O grande temor de Klayton quando ganhou a bolsa para estudar no Colégio Londrinense era com uma possível rejeição dos outros alunos. “Era uma realidade muito diferente para mim. Achava que aquilo não ia dar certo, que eu nunca iria me encaixar naquele mundo”. Mas em nenhum momento ele ficou deslumbrado com a nova realidade que estava conhecendo, não se revoltou com sua própria condição ou se envergonhou dela.

“Eu tinha colocado na minha cabeça que não ia esconder quem eu era. Eu sou o Klayton, moro no Santa Fé, minha condição é essa.” O garoto conta que quando falava onde morava, os colegas se surpreendiam. “Assim como para mim as pessoas que viviam na realidade deles não ligavam umas para as outras, eram arrogantes, para eles no Santa Fé só tinha gente ruim, que falava errado, andava sujo.”

Desta vez, Klayton ensina e aprende. “Eu percebi que minha presença ali entre eles foi mudando a imagem que eles tinham de bairros muito pobres”, afirma. “E eu aprendi que não dá para julgar um livro pela capa e que é possível transitar entre duas realidades sociais tão diferentes. Para isso não tem que ter poder, tem que ter dignidade, nunca esquecer de quem você é.”

Sem diferenças

Vergonha, o rapaz afirma que nunca teve. “Eu não tinha vergonha de falar de onde eu vinha, porque tudo que eu considero que é bom – ser respeitoso, educado, tratar bem os outros, ter dignidade –, se eles tinham, eu também tenho”, afirma. “Nós éramos diferentes só na conta bancária, mas no resto somos iguais. A capacidade de aprender que eles têm, eu também tenho. É claro que eu via coisas materiais que eles tinham e eu não. Mas eu sabia que eu estava ali para tirar o melhor proveito para crescer na vida e era isso que me interessava.”

Colégio “adotou” o adolescente

Muito mais do que oportunidade, a maturidade para agarrá-la e se dedicar foram os elementos que levaram Klayton de Souza a superar tantos obstáculos. Esta é a avaliação da assistente social Jaqueline Teófilo, do Colégio Londrinense. “O Klayton faz bem tudo o que ele pega para fazer”, afirma.

Segundo ela, ele ia bem em todas as matérias. Algumas porque tinha mais facilidade – as da área de humanas, segundo ele – nas outras porque se dedicava muito até aprender. O jovem ganhou do colégio bolsa de estudo, uniforme, lanche, transporte escolar, material escolar e muito apoio durante todo o ensino médio.

“Nós na verdade não sabíamos como Klayton ia se sair vindo estudar em uma realidade sócio-econômica tão diferente”, afirma a assistente. “E ele em nenhum momento teve qualquer problema de relacionamento. Ficamos impressionados com a maturidade dele.”

A assistente social lembra que a equipe do colégio acompanhou emocionada todo o processo vivido por Klayton até a faculdade. “Nos emocionamos muito quando

(Reportagem publicada no Jornal de Londrina)


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