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terça-feira, 18 de agosto de 2009

“Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível”

TESE DE MESTRADO NA USP POR UM PSICÓLOGO

“O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE”


Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social. Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo, por meio período diariamente. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.

Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:

'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.

O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.

No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta.

E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.

Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.

O que senti na pele, trabalhando como gari

Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.

E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?

Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.

E quando você volta para seu mundo real?

Eu chorava. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma '”COISA”!.

Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!


7 comentários:

Antonio disse...

"Ser ignorado é uma das piores sensações da vida!...
Disse tudo.
Parabéns pelo texto.
Abraço

Rodrigo Piva disse...

Vi uma reportagem sobre isso e achei a ideia genial. Me impressionou também o fato de um dos professores do "gari" também o ignorar.

Abraços

amigodcristo disse...

Linda lição de como quebrar a barreira aristocratica de um pais miseravel pela hipocresia, o que ele fez foi mais ou menos oque JESUS,FEZ DEIXAR TODA SUA GLÓRIA PARA SENTIR NA PELE, O PORQUE DO SER HUMANO SER UM SOLO TÃO FERTIL PARA TANTA IGNOMINIA, adorei o texto parabéns!!!

Histórias & Estórias disse...

Esta é uma situação real e séria. Se com os garis - trabalhadores - são assim, imaginem aquele que já perdeu tudo, e vive na e da rua?

edimar disse...

pressionante...eu me lembro quando esse homem começou este trabalho, mas nao sabia que ele ficou tanto tempo neste trabalha...que coragem!parabens pra ele

Xênia da Matta disse...

É realmente triste como somos hipócritas, não é?
Textos como este nos leva a uma profunda reflexão.
Bjux e obrigada por estarem aqui.
Sucesso.

Anônimo disse...

Adorei o texto, sempre falo isso com meus amigos, vivemos em uma sociedade em que ter é muito mais importante que ser, quem tem posição social, dinheiro, cargos importantes ou com alguma influência, vale muito mais em todas as situações, mesmo que esta situação seja suja e esteja a prejudicar pessoas . . . a partir do momento que vc sai dos padrões estipulados por nossa sociedade consumista e mesquinha, vc passa a ser tratado como se nao existisse . . . triste mais é a realidade.
Mas pergunto: será que damos o exemplo certo pra nossas crianças?
será que ao passarmos perto de um gari junto com nossos filhos, sobrinhos etc etc, também não nos omitimos e fingimos que ali não existe ninguém?
Educar com o nosso exemplo muda muito as coisas . . .