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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Álcool no trânsito : quem paga a conta somos nós

A situação brasileira de consumo de bebidas alcoólicas é muito preocupante, porque há décadas o poder público está submetido aos interesses econômicos das cervejarias, das agências de publicidade e da mídia. Por isso não se constrói no Brasil uma política responsável sobre consumo de bebida alcoólica, gerando males à saúde e aumentando a violência. Como está posta a situação, a indústria fica com o lucro e o cidadão brasileiro com o prejuízo.

     O jovem brasileiro está bebendo cada vez mais cedo. Esse fato está sendo verificado em diversas pesquisas, como a recentemente divulgada pela Secretaria Nacional Antidrogas, em parceria com a Unifesp. A informação é ainda mais preocupante se relacionada à constatação de que a chance de alguém ingressar no alcoolismo quadruplica se ele começa a beber antes dos 14 anos de idade.

     Muito antes de gerar alcoolismo, o álcool produz uma série de agravos às taxas de violência (ver quadro). Para efeito de raciocínio, sustentei em uma conferência recente que se ninguém mais bebesse em Porto Alegre haveria 50% de violência a menos nesta cidade. Esse é um dado muito maiúsculo para continuar sendo ignorado. Das medidas indicadas pela Organização Mundial de Saúde para diminuir o consumo de bebidas alcoólicas (ver quadro), nenhuma está realmente vigendo no Brasil.

O normal é não beber

     É necessário mudar a percepção social que se tem sobre o álcool, assim como foi feito com o tabaco. O Brasil gerou um movimento extremamente bem-sucedido de antitabagismo, sendo um exemplo para o mundo. As ações de dar informações ao público, elevar o preço do cigarro, proibir a propaganda e o consumo em determinados lugares, estão funcionando bem.

     A propaganda de bebida alcoólica no Brasil talvez seja a mais irresponsável do mundo. Em nenhum lugar do mundo se vê tanta mulher pelada em anúncios publicitários. Quer dizer, associar cerveja com erotismo, como faz a propaganda brasileira, é de uma perversão atroz, sobretudo para cima do jovem. O adolescente está lá todo inseguro, sexualmente inseguro, e ele acaba convencido de que, se tomar aquela cerveja, vai transar com a Juliana Paes. A sacanagem da mensagem publicitária é justamente essa: “Se o Baixinho da Kaiser e o Bussunda conseguem, por que eu não vou conseguir? Garçom, me dá uma cerveja!”. Se conseguirmos proibir que isso aconteça, as pessoas vão achar que o normal é não beber, como hoje se acha que o normal é não fumar. E isso foi mudado em 20 anos. Então vamos mudar na questão do álcool também.

Como se chega e como se sai

     Alcoolismo é uma doença que não dá em quem não bebe. Se você quer se vacinar contra o alcoolismo, é só não beber. Agora, o inverso disso: beber muito cedo e viver em uma cultura fomentadora de consumo de álcool (uma cultura na qual álcool não é tido como droga, nem cerveja como bebida alcoólica) são fatores que vão potencializando o risco de alcoolismo. Além disso, fatores genéticos e problemas psiquiátricos aumentam ainda mais a chance.

     Quem é o alcoolista? Eu diria que o alcoolista é o imprevisível. Na maioria das vezes, ele bebe e não acontece nada. Às vezes, ele bebe e acontecem tragédias. E não se sabe quando vai dar um ou quando vai dar outro. Quando é que a pessoa cruza a linha? Na primeira vez que alguém comentar que ela bebeu demais, ali houve um cruzar de linha. Se esse cruzar de linha altera a conduta e a pessoa, a partir dali, vai mais devagar, está tudo bem. Se esse cruzar de linha se cronifica, já temos razões para suspeitar de um alcoolismo. Por exemplo, quando os amigos comentam que “esse cara é forte pra bebida!”. Ser forte para bebida é o primeiro sintoma do alcoolismo, pois essa pessoa está ficando com um aumento da tolerância.

     Caracterizado o quadro de alcoolismo, vem a questão: “Como se sai disso?”. A máxima médica diz que quanto mais cedo se procurar socorro, melhores serão os resultados. Mas como o alcoolista vai procurar tratamento se não reconhece que bebe demais? Aí entra o papel da família, que precisa procurar um especialista, relatar a ele a situação e perguntar o que fazer. O especialista vai ensinar o caminho. O fato é que o alcoolismo é uma doença 100% recuperável para aqueles que resolvem não beber mais.

     A redução de danos no Brasil sofreu um viés fortemente ideológico. Os reducionistas estão criando uma confusão no imaginário social ao apostar todas as fichas em “se beber, não dirija”. Eu não quero ter um pai alcoolista e não quero que ele chegue bêbado em casa, mesmo que de táxi. Eu quero que a medicina se esforce para deixá-lo abstêmio. Então não se trata de dar duas alternativas ao paciente. É necessário tentar sempre curá-lo. Naqueles casos em que não for possível, aí deve ser feita a redução de danos.

Medidas para baixar o consumo de álcool entre as populações:

• Proibir propaganda;
• Fechar pontos de venda mais cedo;
• Política efetiva de não vender bebidas alcoólicas para menores de idade;
• Rarefação dos pontos de venda;
• Não vender bebida alcoólica em rodovias e na cercania de escolas e hospitais;
• Elevação do preço final da bebida. Um dos principais fatores, pois o consumidor jovem é muito sensível ao produto caro.

Estatísticas de violência relacionada ao álcool:

• 72% dos crimes contra a vida;
• 50 a 80% dos acide ntes de trânsito com morte;
• 52% das agressões domésticas contra a mulher;
• 36% dos suicídios.


Sérgio de Paula Ramos,
Psiquiatra, psicanalista e doutor em medicina pela Unifesp. Coordenador da Unidade de Dependência Química do Hospital Mãe de Deus e membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD).
Endereço eletrônico: 
serramos@terra.com.br

6 comentários:

Sandra F. disse...

Esse problema é muito sério realmente. As autoridades precisam focar melhor nisso. Os familiares devem dialogar com os adolescentes. Deve haver mais campanhas de conscientização com a participação de pessoas que não tomaram o devido cuidado e hoje estão com sequelas. Enfim, é complicado!

Bjs.

Altemar Rocha disse...

Olá Xenia.
Como gostei do seu post!
Especialmente da frase "Eu não quero ter um pai alcoolista e não quero que ele chegue bêbado em casa".
Sou completamente contra as bebidas alcoólicas. É claro que também sou contra o tabagismo, mas o álcool é pior ainda. Eu sei que sempre vamos encontrar os que dizem: bebo, mas sei controlar o vício; bebo só socialmente; bebo mas não faço mal a ninguém, etc.
São muito mais os a favor das bebidas do que os que são contra.
Mas como vemos no seu post, os efeitos são terríveis.
No meu blog tenho um espaço permanente para um alerta quanto o alcoolismo.
Poderíamos fazer uma blogagem coletiva com esse tema, como estamos fazendo quanto à pedofilia.
Talvez tivéssemos poucos votos, mas sua importância é fundamental.

Abraços e parabéns pelo post,
importantíssimo.

Xênia da Matta disse...

Oi, sandreca, obrigada por estar sempre presente por aqui,minha lindinha!
Bjux e sucesso!

Xênia da Matta disse...

Oi Altemar,
obrigada por seu comentário. Eu também sou contra o uso de álcool ou de qualquer outra droga. Acredito que o riso mais bonito é o da verdadeiro felicidade.
Quem usa este tipo de "auxílio" para ser feliz é uma pessoa muito vazia.
Não condeno, respeito a todos, convivo harmoniosamente com as diferenças.
mas, pra mim, ser feliz mesmo, ou ser triste... é um estado de espírito, e toda experiência deve ser vivida intensamente.
Bjux e sucesso.

luzia ariadene disse...

realment esse é um problema serissima, aqui em maraba no para tambem nao é diferent a inprudencia sao as q fazem mas vitimas aqui, fora a violencia que tambem vem batendo seus recordes

eva wilma disse...

Oi querida adorei seus post!
agora ja que você é mais interrada nesse assunto queria sua ajuda pois ,eu faço faculdade de Enfermagem e adotei um projeto discutindo a prevenção de acidentes de transito motivados pelo alcool. então estava tentando achar umas ideias inovadoras para aplicar com adolescentes, algumas dinamicas , você poderia me ajudar?;D