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terça-feira, 22 de setembro de 2009

MINHAS IDÉIAS PESSOAIS SOBRE ENSINO E APRENDIZAGEM - Carl Rogers


 IDÉIAS PESSOAIS SOBRE ENSINO E APRENDIZAGEM (CARL ROGERS)

Gostaria de lhes apresentar algumas breves observações, na esperança de que elas provoquem alguma reação em vocês, de forma que eu possa ter uma nova luz sobre as minhas próprias idéias.

Na minha opinião, trata-se de uma coisa muito preocupante para pensar... Pensar sobre as minhas próprias experiências e tentar extrair delas o significado que parece genuinamente inerente a elas.

De início, este pensamento é muito satisfatório, pois parece descobrir a percepção e os modelos de um grande número de eventos discretos.

Mas logo em seguida, me sinto desencorajado, pois eu sinto quão ridiculos estes pensamentos, que tem um grande valor para mim, podem parecer para muitas pessoas.

Minha impressão é de que, se eu tentar encontrar o significado da minha própria experiência, isto me leva, quase sempre, a direções consideradas como absurdas.

Desta forma, nos próximos três ou quatro minutos, tentarei digerir alguns destes significados, que vieram das minhas experiências em sala de aula e em terapias individuais ou em grupo.

Não há jeito de entendê-las como conclusões para mais ninguém, ou como um guia sobre o que as pessoas devem fazer ou ser, são alguns significados experimentais, como os de abril de 1952, que minha experiência me trouxe, a algumas destas questões perturbadoras nas quais cresce seu próprio absurdo.

Eu colocarei cada idéia ou significado num parágrafo separado e itemizado por letras, não porque eles tenham alguma ordem lógica, mas porque cada significado é importante para mim, separadamente dos demais.

a) Minha experiência foi no sentido de que não consigo ensinar outras pessoas a ensinar.
Tentar isto para mim é fútil a longo prazo.


b) Me parece que qualquer coisa que possa ser ensinada para outra pessoa é relativamente inconseqüente, e tem pouca ou nenhuma importância no comportamento.
Isto soa tão ridículo que eu não posso deixar de questioná-lo ao mesmo tempo que o presencio.


c) Eu percebo, de forma crescente, que estou interessado somente em aprendizados que modificam o comportamento de forma significativa, possivelmente é uma idiossincrasia pessoal.


d) Eu sinto que o único aprendizado que influencia o comportamento de uma forma significativa é a auto-descoberta, o auto-aprendizado próprio de cada pessoa.

e) Este auto-aprendizado, partindo-se do ponto de que foi pessoalmente apropriado e assimilado através da experiência, não pode ser diretamente comunicado a outras pessoas.
Tão logo um indivíduo tenta comunicar um destas experiências diretamente, frequentemente com um grande entusiasmo natural, isto vem a ser ensinar, e seus resultados são desprovidos de conseqüências.
Senti um certo alívio ao descobrir recentemente que Soren Kierkegaaard, o filósofo sueco, também chegou a esta mesma conclusão, e a enunciou de forma bastante clara ha um século.
Isto fez com que minhas idéias parecessem menos absurdas.


f) Como conseqüência do que foi escrito acima, eu compreendi que perdi o interesse em ser professor.

g) Quando eu tento ensinar, como faço algumas vezes, eu fico chocado com os resultados, mesmo que estejam algo acima de inconseqüentes, pois algumas vezes o ensino parece dar resultado. Quando isto acontece, eu acho esses resultados prejudiciais. Isto parece que provoca uma desconfiança no indivíduo a respeito de sua própria experiência, e sufoca o aprendizado. A partir disso, eu passei a sentir que os resultados de ensinar são pouco importantes ou até mesmo penosos.


h) Quando olho para os resultados da minha docência no passado, os resultados reais parecem os mesmos – ou o dano foi realizado, ou nada significativo ocorreu. Isto é francamente preocupante.

i) Como uma conseqüência, eu passo a compreender que estou interessado apenas em ser um aprendiz, aprendendo preferencialmente as coisas que interessam e que possuem alguma influência significativa no meu comportamento.

j) Eu achei muito compensador aprender em grupos, no relacionamento com outra pessoa, como na terapia, ou por mim mesmo.

k) Descobri que, para mim, um dos melhores, porém mais difíceis caminhos para aprender, é largar minha posição defensiva, ao menos temporariamente, e tentar entender de que forma a experiência de uma pessoa se parece e é sentida por outra pessoa.

l) Descobri também que uma outra forma de aprender, para mim, é especificar as minhas próprias incertezas, tentar clarificar as minhas dúvidas e, em seguida, chegar mais perto do significado que minha experiência realmente parece possuir.

m) Todo este encadeamento de experiências, e os significados que extraí a partir delas, parecem ter me lançado num processo que é ao mesmo tempo fascinante e, algumas vezes, um pouco alarmante.
Parece significar que, deixando me levar pelas minhas experiências, sou carregado numa direção que parece me levar adiante, em direção as metas que posso vagamente discemir, quando tento entender ao menos o significado principal desta experiência.
A sensação é de flutuar numa complexa corrente de experiências, com a fascinante possibilidade de tentar compreender a sua complexidade sempre mutável.
 
Tenho medo de que possa parecer que eu acabei de sair de qualquer discussão sobre aprendizado, bem como sobre ensino.


Deixem me introduzir novamente algumas observações práticas, dizendo que, por elas mesmas, estas interpretações da minha própria experiência podem soar estranhas e aberrantes, mas não particularmente chocantes.


E neste momento que compreendo as implicações e estremeço, um tanto, quando vejo que me distanciei do mundo do senso comum do qual todo mundo sabe ser correto.
Eu posso ilustrar isso de melhor maneira, dizendo que se a experiência dos outros tivesse sido a mesma que a minha, e se eles descobrissem significados semelhantes nelas, muitas conseqüências estariam implicadas:


a) Esta experiência deve implicar em que devemos deixar o ensino de lado. Pessoas deveriam ficar juntas se quisessem aprender.

b) Nós deveriamos deixar de lado os exames. Eles medem apenas o aprendizado do tipo inconseqüente.

c) A implicação seria de que, pelas mesmas razões, deveríamos deixar de lado as notas e os créditos.

d) Ainda pela mesma razão, em parte, deveríamos deixar de lado os diplomas como medida de competência.
Outra razão é de que um diploma marca um final ou uma conclusão a respeito de alguma coisa, e o aprendiz está interessado somente num processo contínuo de aprendizado

e) Isso implicaria em largar a exposição de conclusões, pois compreenderiamos que não se aprende de maneira significativa a partir de conclusões.
 
Acho que a melhor parar por aqui. Não quero vir a ser muito fantástico.
Eu gostaria de saber, em primeiro lugar. se alguma coisa no cerne do meu pensamento, como eu tentei descrevê-lo, diz alguma coisa a sua experiência em sala de aula, na forma como vocês a vivenciaram e, em caso positivo, quais são os significados que para vocês existem na sua própria experiência.


TRADUÇÃO: Gilberto Teixeira - Prof. Doutor FEA/USP

O texto  é uma tradução do artigo 
“Personal Thoughts on Teaching and Learning” de Carl Rogers, publicado no livro “On Becoming a Person” (Boston, Houghton Mifflin. Co - 1961. pp 275 - 278 ).
Por se tratar de uma importante contribuição do renomado psicólogo e educador Carl Rogers foi traduzido para fins acadêmicos no curso Didatica I (PPGAlFEAlUSP).

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