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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Relato de uma mãe que perdeu seu filho no trânsito.

Prepare-se também para a vida

     A escolha profissional é uma das decisões mais importantes da nossa Vida. Acompanho isso há quase trinta anos, quando conheci o Régis, que na época era professor do Curso pré-vestibular Franklin Delano Roosevelt, da Faculdade de Filosofia da UFRGS. Ele professor, eu aluna, me preparava para o vestibular de Arquitetura. Anos depois nos casamos e construímos uma família. Ele continua Professor até hoje, eu exerci a Arquitetura até o dia 20 de maio de 1995, quando recolhi meu filho Thiago do asfalto. Desde lá, tenho dedicado a minha vida para que outros pais não tenham que passar pelo que passei: ver sonhos e projetos interrompidos nas ruas e avenidas brasileiras.

     Meu filho Thiago estava preparando-se para o vestibular, era aluno do pai (Régis) no cursinho. Ele, assim como milhares de jovens, tentava uma vaga na UFRGS.

     Lembro, como se fosse hoje, que sua primeira escolha era Medicina, só que após alguns dias de cursinho ele chegou em casa e falou: “Não vou mais fazer Medicina, aqueles caras parecem uns Zumbis, com olheiras, e só estudam o tempo todo. Vou fazer Direito e tentar a carreira de juiz”. E assim são muitos jovens.

     (...)Não sei se o Thiago teria cursado Direito, sequer saberei se ele conseguiria passar no vestibular, pois na madrugada fria do dia 20 de maio de 1995 ele embarcou em uma carona sem volta.

     O vestibular para ele era uma grande preocupação, tanto que mexendo em suas coisas, encontrei um texto escrito por ele, em que falava sobre “o caminho a seguir”, suas preocupações com o vestibular e a carreira.

     O Thiago tinha completado 18 anos, uma semana antes do acidente. Ele estava vivendo este período onde temos que tomar decisões que vamos levar para o resto da vida. Junto com o vestibular, estava se preparando para tirar a Carteira de Motorista. Já tínhamos até enviado a Gurgel, que era um carro da família, para a reforma, a fim de presenteá-lo com ele. O carro não tinha muita potência. Como pais, nos preocupávamos com sua segurança. A Gurgel serve hoje de cenário para o Projeto “Contadores de Histórias”, desenvolvido para educar crianças em idade pré-escolar e foi Doado à Fundação Thiago de Moraes Gonzaga.

     (...) O Thiago não estava sozinho no acidente. Na carona como ele havia o jovem Rodrigo, de 17 anos, que cursava Direito. Rodrigo partiu ainda no primeiro semestre da faculdade.

     Muitas são as histórias de jovens universitários, calouros, veteranos e formandos que não conseguem completar sua trajetória vitimados pelas tragédias do trânsito brasileiro.A decisão de não beber quando dirigir, pegar carona com alguém de cara limpa, tirar o pé do acelerador, usar o cinto de segurança, pedir para o amigo ir mais devagar é tão ou mais importante quanto a do curso a escolher. Muitos projetos ficam inacabados por esta decisão.

     Devemos fazer uma reflexão sobre o assunto, pois nem sempre a pessoa que é vocacionada para ser Médico tem o mesmo brilhantismo na condução de um veículo. Médico, Engenheiro, Advogado, Professor, também brigam no trânsito, desferem palavrões a quem respeita o limite de velocidade à sua frente, dirigem de forma perigosa e irresponsável. Nem todos que se preparam para uma profissão preparam-se também para a vida.

     Nesta época de Vestibular é preciso que todos pensem muito nisso. Nós, pais, que muitas vezes esperamos que os jovens tomem uma decisão quanto à profissão a seguir, muitas vezes nos surpreendemos quando eles decidem que vão casar, por acharmos que são muitos jovens. Por outro lado, respondemos com um grande espanto: como não decidiu? Quando há dúvida na escolha do curso.

     Presentear com um carro o sucesso no vestibular é outra atitude a ser avaliada. Será que o futuro “Doutor” possui no trânsito a mesma responsabilidade que no estudo?

     (...) Evitar os acidentes de trânsito deveria ser um compromisso de todos, não só nos feriados, mas todos os dias. Esse objetivo deverá estar presente quando saímos para nos divertir, quando levamos “as crianças” na festa, quando nos deslocamos para o trabalho, para a escola, quando viajamos e até quando saímos para festejar a aprovação no vestibular.

     Não queremos comover a sociedade. Não desejamos que ela tenha pena daqueles que, como nós, perderam alguém que muito amavam nesta guerra do trânsito. Queremos é que ela reaja e que tenha dignidade de assumir sua parte na mudança desta situação.


Diza Gonzaga
Porto Alegre, RS.

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