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domingo, 22 de novembro de 2009

culpa não é minha!




Ouvimos e proferimos a exclamação do título desde pequenos. Parece ser um dos atos mais humanos sentir culpa. Contudo, ninguém gosta de senti-la, tanto é assim que os ataques mais fortes da psicologia no século XX tiveram como alvo a culpa.

Entretanto, como pude observar em meu trabalho de mestrado, que teve como objeto a poesia do açoriano Vitorino Nemésio (1901-1978), a culpa não é, a priori, um mal que deva ser extirpado, já que por vezes pode ser um alarme de incêndio. Negá-la seria uma sandice, pois se a casa está pegando fogo, o melhor é agir para evitar danos piores. Na voz do poeta, a culpa assume por vezes tons amargos para depois apresentar um ressurgimento, como no belo poema O pão e a culpa. Após relembrar um passado feliz, vê com desgosto o presente e escreve:

Se não parto na mesa o pão que posso 
É minha a culpa

Contudo, a segunda parte do poema, após a confissão de culpa, assume um tom de resgate da existência. Invoca o nome de uma mulher que foi sua mestra na infância (dizem alguns ter sido sua professora de catecismo):

LUCINA! 
Nas coisas simples te vejo 
Com a presença divina 
Que foi teu fito e desejo

Após essa lembrança, diz o poeta a essa interlocutora que perdeu os valores da infância e hoje sua vida é vazia:

Bem traçaste a portada 
Que os meus versos teriam... 
Enchi o livro de nada! 
Mundo e carne mais podiam.

E, no fim dessa “confissão” a uma pessoa que já partiu, escreve, criando uma bela imagem de mulher delicada e santa:

Mas a silêncio um dedo 
Levas à boca fina 
No Céu, e eu creio. É cedo 
Em Deus sempre, Lucina.

A culpa, para o poeta, foi o ponto de partida para uma renovação, expressa nas palavras: “É cedo/ em Deus sempre”, ou seja, a culpa que sentia foi apagada pela percepção que, para recomeçar, para se viver a felicidade, não há passado, apenas presente.

A culpa só esmaga a pessoa quando ela tenta enganar a sua consciência. Essa tentativa é real, pois, como explica a etimologia da palavra, consciência é “estar ciente”, “ter conhecimento”. Mal comparando, a culpa é como uma gastrite, que é a inflamação do estômago. No caso, é uma inflamação da nossa consciência, que “armazena” nossas ações passadas e nossos valores. Caso os atos do presente não correspondam ao que aspirávamos e víamos como certo, a consciência inflama-se. Se não tratada, transforma-se em uma úlcera. 

O tratamento, como bem sabemos e como o poema manifesta é “retificar-se”, ou seja, tornar reto, corrigir, reparar. Note o leitor que deixei propositalmente de lado os casos mais particulares como, por exemplo, quando uma pessoa, por ser escrupulosa, culpa-se por tudo. Quis apenas demonstrar os mecanismos de um sentimento comum e que pode ser curado.

O problema não está em sentir culpa, como afirmam alguns, pois é um sentimento humano. O que pode ser grave para uma pessoa é não retificá-la, não apagar essa culpa, já que a úlcera da consciência é o remorso. A culpa, na verdade, está ligada à responsabilidade. Quando ela passa de sentimento a culpa concreta, ou seja, sinto-me mal em um primeiro momento e depois vejo que agi mal em alguma coisa, a pessoa que a sofre entende ser responsável por seus atos.

Talvez em campos como política e educação, por exemplo, um pouco mais de culpa não faria mal a ninguém...






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