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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As crianças e os palavrões

Se seu filho diz muitos palavrões, cuide dos que você fala...

Se você não usa palavrões, não permita que seu filho o faça.

Se você sempre usa palavrões no seu vocabulário cotidiano, foi com você que seu filho aprendeu.

Se você nunca fala, então seu filho aprendeu em algum lugar ou com alguém. Ele trouxe dos lugares onde frequenta ou das pessoas com quem anda os tais palavrões que são "piolhos verbais".

Ninguém gosta de piolhos. Eles não fazem parte de famílias saudáveis e limpas. Quando trazidos para a família, seja quem quer que os traga (filhos pequenos, graúdos, pais, parentes, amigos, vizinhos, colegas, visitas etc.), de onde quer que venham (escolas, passeios, fazendas, casas visitadas etc.), de quando e como voltam para onde vieram, os pais ou responsáveis logo os combatem, pois, além de provocar coceiras, são tremendamente nojentos e transmitem doenças. 

Sabe-se que antigamente os piolhos chegavam até a matar humanos e judiar muito de outros mamíferos, pois eles são hematófagos, isto é, vivem do sangue sugado de sua vítima. A fêmea põe 12 ovos por dia, que viram piolhinhos no período de 6 a 9 dias. Os piolhos transmitem doenças como febre tifóide e provocam anemia no seu hospedeiro. Seu tratamento é muito simples, apesar de trabalhoso. Um pente superfino passado de mecha em mecha, desde a raiz do cabelo até as suas pontas, retira mecanicamente os piolhos ou um secador de cabelos bem quente em minutos queima-os ou os espanta, mas não os seus ovos, chamados lêndeas, que permanecem fortemente grudados na base do cabelo. 

Chamo os palavrões de piolhos orais porque eles são falados e, quando proferidos em acompanhamento de específicas ações, viram piolhos comportamentais. 

Geralmente, os palavrões são ofensivos e destrutivos, pois são descargas emocionais inadequadas de sensações de frustração, de raiva, de inveja, de dor, que em vez de resolver os problemas, somente os complicam. Tal como os piolhos, eles se instalam nas mentes dos seus usuários e sugam-lhes a saúde relacional. Os palavrões se instalam no cérebro pelo uso constante, a ponto de estabelecerem um curto-circuito nele e os piolhos saltarem antes das soluções.

Graças à natureza da espécie humana, nascemos sem saber falar e aprendemos a língua mãe por convivência. É esta a via contaminadora dos piolhos orais: convivência. Os filhos aprendem não somente o que seus pais falam, mas também as falas de outrem escutadas alhures. 

Assim como piolhos, os palavrões devem ser combatidos porque eles iniciam uma deterioração do respeito humano, pois é uma manifestação que ninguém gosta de receber para si. Se o organismo for frágil e susceptível como em crianças que ainda não conseguem se defender, tais piolhos orais acabam com a sua autoestima, a alma identifica-se com o ser ofendido e não custa muito a julgar-se merecedora de qualquer maltrato. Já carrega dentro de si as lêndeas que, assim que se desenvolverem, serão também usadas com as mesmas intenções aprendidas dos seus ofensores, ou seja, passam a contaminar outras pessoas. 

O melhor remédio contra os piolhos orais é a educação que ensine a fraternidade a cada um dos seres humanos, eliminando o preconceito, o egocentrismo, a arrogância, o abuso, a tirania, a destrutividade, por meio de um pente fino em suas falas. Dessa forma, é possível criar um calor afetivo que desmancha qualquer mau humor, ninho dos palavrões e suas lêndeas.

Por: Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 25 livros

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