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quarta-feira, 21 de abril de 2010

A eficiência dos deficientes

Um grupo de adolescentes da APAE estava varrendo e limpando uma área pública de Campinas na região dos Amarais. De repente, um deles começou a reclamar e a manifestar uma indignação muito forte. Eu deixei o banco onde estava sentado e me aproximei. Ele me explicou, com lágrimas nos olhos, as razões da sua revolta: copos, cigarros e papéis lançados ao lado de um grande cesto de lixo. Esse jovem, portador da síndrome de Down, achava aquilo um absurdo. Toda semana ele enfrentava a mesma situação.

Num primeiro momento imaginei que a sua condição genética explicava uma reação quase desmedida: chorar pelo lixo jogado fora do lixo. A sensibilidade especial, dessas pessoas especiais, podia e devia explicar aquela reação tão emotiva. Tentei argumentar, sem negar sua razão de indignar-se. Prometi ajudar a identificar o responsável por aquele descuido e convencê-lo a ser mais atento. Seus colegas de trabalho, iguais a ele em tudo, também intervieram. No fim o rapaz trocou o pranto por um sorriso e voltou a garimpar, como se fossem tesouros, papéis e detritos na grama e na calçada.

Ainda no local, observando e pensando no comportamento das pessoas com relação ao lixo e à cidade, comecei a pensar na falta de racionalidade e na deficiência comportamental de nossos cidadãos. Não é somente um problema social. Trata-se de uma prática a qual todas as classes sociais parecem dar-se com prazer: o desrespeito das vias públicas, o lançamento de lixo através da janelas dos carros, como se estivessem circulando em aterros sanitários e não nas proximidades da UNICAMP ou do centro da cidade. Conheço pessoas que já me disseram não fazer isso nos Estados Unidos, mas aqui é diferente... Mudam de país, mudam de comportamento!

Não há fiscalização, nem varrição que dê conta de tamanha deficiência educacional e comportamental. É caso de chorar, sobretudo quando as pessoas têm a sua disposição cestos e latas de lixo e insistem em ignorá-los, lançando seus detritos pelo chão. Essa carga cotidiana de detritos, além de sujar a cidade, ameaçar a saúde e favorecer a proliferação de vetores de doenças, acaba entupindo a rede de escoamento das águas de chuva, obstruindo bueiros, entulhando córregos e provocando inundações. A nossa deficiência individual gera ineficiência coletiva e amplia a debilidade de nossas infra-estruturas sanitárias. E tudo isso é parte de pessoas que valorizam a competição e o desempenho como critério supremo para avaliar tanto comportamentos e relacionamentos, como economia e política. 

Parece que perdemos nossa capacidade de reagir diante desse problema. Existem coisas piores e mais graves diriam alguns. É verdade, mas não é desculpa. É nosso dever educar e dar o exemplo. Nosso torpor leva à indiferença e ao agravamento da situação. É no mínimo paradoxal que, enquanto o cidadão normal esbanja vandalismo ambiental e inconsciência citadina, um jovem deficiente demonstra sua capacidade - felizmente ainda não perdida - de indignar-se diante de tamanho absurdo.

Sentadinho no meu banco, vendo a alegria e a dedicação daqueles rapazes da APAE limpando a rua e os jardins, num trabalho de Sisífo, eu comecei pensar que o choro do portador da síndrome de Down era mais do que justificado. Era de justa medida diante de tanto descaso e desrespeito dos chamados "eficientes" pela casa onde vivem.



5 comentários:

Sissym disse...

Xenia, na ultima decada aprendemos que os deficientes não tem nada de deficientes, são muito capazes, capazes até de trazer uma medalha de ouro quando é assunto de competições esportivas. Para mim a maior deficiencia existente na vida é da falta de amor e respeito que muitos cidadãos tem contra outros e a natureza. Belissima postagem. Bjs

Rosana Madjarof disse...

Xênia,

Esse tipo de notícia me enoja, pois os deficientes são os membros que fazem parte da equipe dessas entidades.

Vemos muitos downs por aí, que exercem funções com qualidade e produtividade.

É uma vergonha mesmo.

Bjs.

Rosana.

Shirley disse...

Oi, Xênia! Menina, que texto maravilhoso, hein? Sabe, eu sempre digo que deveríamos todos ter nascido ainda mais imperfeitos do que já somos - de repente se todos nascessem com Síndrome de Down o mundo fosse melhor. Eu não gosto de me oferecer como exemplo, mas devido aos meus problemas de coluna já posso ser considerada "deficiente", mas só pros outros, pq dentro de mim eu sei da minha eficiência: trabalho, sou independente, vivo uma vida relativamente boa - apesar das dores eternas. E te digo uma coisa: eu NUNCA jogo lixo na rua, prefiro colocar dentro da bolsa e jogar na lixeira de casa a soltar na rua. Fica complicado pensar na maneira CERTA de educar uma população que parece não se preocupar em nada com o seu próprio ambiente, né? De repente um "deficiente" poderia ser o professor... ;-) Bjo, querida, e parabéns pela reflexão!

Principe Encantado disse...

Como tem deficientes espalhados por ai, fingindo ser normal.
Abraços forte

drauziomilagres disse...

Quem tem a possibilidade/oportunidade de conviver com pessoas com deficiência se surpreende a todo instante.

Um abraço.

Drauzio Milagres