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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Vista cansada



Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

por: Otto Lara Resende

5 comentários:

G. disse...

Poderia dizer que o texto é extremamente triste... porém, verdadeiro. A verdade às vezes é triste. Entretanto, corajosos são aqueles que procuram "enxergar" meios de não se conformar com a tristeza da realidade. O texto que você postou me fez pensar quantas coisas estou deixando de ver. Por outro lado, incentivou-me também a fazer mais no sentido de realmente ver, enxergar a vida e as pessoas à minha volta e à minha frente. Obrigado por isso. Grande abraço. Cuide-se bem.

Sissym disse...

Cansamos mesmo ou não vemos por que não queremos! Eu sempre procuro renovar o que estou vendo. O casamento quando estava ruim eu tentava resgatar o melhor, mas um dia passou a ser impossivel.
Se tivermos inteligencia emocional seremos capazes de ver melhor.

Otávio Avendano de Vasconcellos disse...

Realmente, temos que entender que há coisas que não vemos, não escutamos nem sequer sabemos que existem. E isso torna a existência fascinante, pois sempre temos o que aprender uns com os outros. Abraço!

Jack Dieguito disse...

Acho que os adultos de hoje em dia estão cegos demais e por opção mesmo. Essa nova era não dá muito crédito para a visão, só virtual
abçs

Principe Encantado disse...

Realmenteu muito bom texto para reflexão, estamos mesmo cegos a alienados a muitas coisas ao nosso redor.
Abraços forte