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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Pais bonzinhos são tão danosos quanto pais indiferentes

Se as relações familiares não fossem complicadas, não existiria o mandamento "Honrarás pai e mãe". Comentário de grande sabedoria. Assunto inesgotável. Como educar, como cuidar neste mundo maravilhoso e tresloucado, com tanta sedução e tanta informação – um mundo no qual, sobretudo na juventude, nem sempre há o necessário discernimento para escolher bem?

Saber distinguir o melhor do pior, ser capaz de observar e argumentar, são o melhor legado que família e escola podem dar. Na família, fica abaixo só do afeto e da segurança emocional. Na escola, importa mais do que o acúmulo de informações e o espaço das brincadeiras, num sistema que aprendeu erroneamente que se deve ensinar como se o aluno não tivesse de aprender. Fora disso, meus caros, não há salvação. Isso e professores supervalorizados e bem pagos, escola para todos – não mais milhões de crianças e jovens em casas cujo pátio é barro misturado a esgoto, ou na rua, com o crack e a prostituição. Um ensino que dê muito e exija bastante: ou caímos na farra e no despreparo para a vida, que inclui graves decisões pessoais e um mercado de trabalho cruel.


Bem antes da escola vem o fundamental, o ambiente em casa, que marca o indivíduo pelo resto de sua jornada. Se esse ambiente for positivo, amoroso, a criança acreditará que amor e harmonia são possíveis, que ela pode ter e construir isso, e fará nesse sentido suas futuras escolhas pessoais. Se o clima for de ressentimento, frieza, mágoas ocultas e desejos negativos, o chão por onde o indivíduo vai caminhar será esburacado. Mais irá tropeçar, mais irá quebrar a cara e escolher para si mesmo o pior.

Dificuldades familiares não têm a ver só com o natural conflito de gerações, mas também com a atitude geral dos pais. Eles têm entre si uma relação de lealdade, carinho, alegria? São realmente interessados, tentam assumir suas responsabilidades grandes e difíceis? Foi-se o patriarcado, em que havia regras rígidas. Eu não quereria estar na pele dos infratores de então, os filhos que ousavam discordar. Em lugar da anterior rigidez e distância, estabeleceu-se a alegre bagunça, com mais demonstrações de afeto, mais liberdade, mais respeito pelas individualidades – muitas vezes com resultados dramáticos. Lembro a frase que já escrevi nesta coluna, do psicólogo que me revelou: "A maior parte dos jovens perturbados que atendo não tem em casa pai e mãe, tem um gatão e uma gatinha". Talvez tenham uma mãe que não troca cabeleireiro e academia por horas de afeto com os filhos, ou um pai que corre atrás do dinheiro necessário para manter a família acima de suas possibilidades, por ilusão sua ou desejo de status de uma mulher frívola.

Crianças de 11 anos freqüentam festinhas em que rola o inenarrável: onde estão pai e mãe? Adolescentezinhos rodam de madrugada pelas ruas, dirigindo bêbados ou drogados: onde estão pai e mãe? Quase crianças passam fins de semana em casas de serra e praia reais ou fictícios, com adultos irresponsáveis ou só entre outras crianças, transando precocemente, drogando-se, engravidando, semeando infelicidade, culpa, desorientação pela vida afora. Onde estão os pais?

Ter filho é talvez a maior fonte de alegria, mas também é ser responsável, ah sim! Nisso sou rigorosa e pouco simpática, eu sei. Esse é o dilema fundamental numa sociedade que prega a liberalidade, o "divirta-se", o "cada um na sua", como num pré-apocalipse. Mais grave ainda num momento em que a honradez de figuras públicas (que deveriam ser nossos guias e modelos) é quase uma extravagância. Pais bonzinhos são tão danosos quanto pais indiferentes: o amor não se compra com presentes, nem permitindo tudo, nem fingindo não saber ou não querendo saber, muito menos desviando o olhar quando ele devia estar vigilante. Quem ama cuida: velho princípio inegável, incontornável e imortal, tantas vezes violado.

Lembrem se que o amor é exigente. Quem ama cobra responsabilidades.

Por Lya Luft (com algumas adaptações minhas).

5 comentários:

Roniel A. Julio disse...

Amiga Xenia, um texto maravilhoso, pois como pai, posso dizer que cuido da educação do meu filho, e sei de muitos pais que são tão liberais com seus filhos, que não conseguem enxergar o que realmente acontece nas vida deles. Na verdade, os filhos precisam de pais e mães que sejam amigos, e não de amigos que se passem por pais e mães. Abraços. Roniel.

Cecília Avenca disse...

Não sou mãe ainda mas acredito que a própria criança deseja ter limites...ele prescisa de ouvir algumas vezes um sonoro "não", para que seu desenvolvimento psicosocial se torne pleno, e prenda lidar com as frustações.
Bjos

Jackie Freitas disse...

Oi Xênia!
Adorei o seu post e curiosamente o li depois que publiquei o meu sobre o meu filho. Se puder ler, gostaria de sua opinião. Vou ficar feliz em ler, pois eu relato um acontecimento que até agora, honestamente, não sei como conduzir. Chama : O Recheio do Sanduíche!
Grande beijo,
Jackie

Principe Encantado disse...

Uma boa correção e umas palmadas a mais, não vão fazer mal algum.
Abraços forte

Sissym disse...

Uma vez eu li que existem vários tipos de pais, hoje em dia prefiro não ser "boazinha", pq ela não está mais numa idade para isso, sim saber quem manda e que é preciso ouvir, obedecer e respeitar. Contudo ela tem 2 casas, não posso controlar o que estão fazendo lá, e dá para perceber perfeitamente nas atitudes de minha filha: rebeldia e desacato.

Não sou flexível para o que considero abusivo. Não quero ser responsável por uma pessoa adulta que não aprendeu medidas para se tornar uma pessoa mais sensata.

Bjs