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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Relatos tristes de quem luta contra o crack

Usuários de crack não costumam estacionar no fundo do poço das drogas. O que seria o porão do inferno ainda não é o fim da linha. É apenas a primeira estação do sumidouro que arrasta as vítimas do beijo da lata – alusão à forma como a pedra é fumada.
A queda livre, por vezes, não tem volta. O crack devora a saúde, reduz corpos a esqueletos ambulantes. O crack devasta reputações, transforma honestos em ladrões capazes de furtar da própria mãe. O crack pulveriza o patrimônio, é uma fábrica de mendigos. E também aciona o gatilho da violência.

Fazenda Esperança: a 9ª chance de G., 26 anos

O jovem fluente em inglês e espanhol varre os corredores do seminário da Fazenda da Esperança, mas o barro vermelho que gruda nos sapatos dos internos voltará a sujar as lajes. Resignado com as tarefas que recebe, ele também lava pilhas de louça e panelas, enquanto lembra a época em que era recepcionista de um hotel internacional de Curitiba. Todo dia, a mesma faina.

Preferindo ser identificado pela inicial do nome, G. está na fazenda desde fevereiro. É a nona tentativa que faz para se livrar do crack. Já esteve em oito clínicas, hospitais e comunidades terapêuticas, mas em todos sucumbiu ao apelo da droga. Agora, obstina-se que vencerá.

Ele começou a se drogar aos 15 anos, numa casa noturna GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), onde encontrou dois rapazes e uma mulher no banheiro mix. Ela preparou quatro carreiras de cocaína e ofereceu um canudo para o então adolescente:

— Ó, essa é pra ti, meu lindo!

Com o batismo, G. não parou mais. Fumou maconha, sentiu que a cocaína o libertava da timidez. Colecionou amigos na noite, afundou na promiscuidade, com drogas e sexo. Aos 19 anos, depois de pensar no suicídio, estarreceu a família  — o pai é oficial militar — ao revelar o homossexualismo e a dependência. A partir daí, sua vida passou a ser regida por sucessivas internações:

1ª) Na primeira vez, em Santa Catarina, ficou quatro meses.

2ª) Na segunda, no hospital psiquiátrico de Curitiba, mais 30 dias.

Ao sair da segunda internação, aos 21 anos, G. conheceu o crack. A euforia superou a das injeções de cocaína na veia. G. atirou-se na novidade, fumando diariamente, cada vez mais. Roupas de grife, tênis e aparelhos de DVD pararam nas mãos dos traficantes. Um relógio Tommy Hilfiger, de R$ 800, foi trocado por míseras duas pedras.

O crack arruinou o caráter de G., que chegou a furtar dinheiro de colegas, no escritório, depois chorou de vergonha e devolveu os valores. Numa sexta-feira, aos 21 anos, os hábitos devassos apresentariam a conta, na forma de um atestado médico: contraíra o HIV. Abatido, tomou uma overdose, foi encontrado babando e meio torto.

3ª) Nova internação no hospital psiquiátrico de Curitiba, onde ficou dois dias.

4ª) Quinze dias depois, baixou no mesmo hospital.

O rapaz de 1m87cm perdera quase 20 quilos, caminhava encurvado, os fundilhos sobrando, como um boneco de engonço prestes a se decompor. Quando estava com os dedos sapecados, de tanto acender o isqueiro do crack, viu a mãe tentar arrancar os próprios cabelos, desesperada. Então,

5ª) foi internado na Pinel, Curitiba.

Melhorou. Teve um tórrido romance com um professor universitário, até que o crack os separou. Foi selecionado para trabalhar no hotel cinco estrelas, sendo promovido a recepcionista trilíngüe. Mas não resistiu.

6ª) De novo, na Pinel.

Em janeiro de 2007, pesaroso com a morte de uma amiga, seguiu a rotina de internações.

7ª) No Centro Terapêutico Viva, de São Paulo, por mais quatro meses.

Depois de agredir o pai e quase bater na mãe também, foi morar em Belo Horizonte, mas o crack o transformou num mendigo.

8ª) Voltou ao Viva (SP).

Ao terminar a oitava internação, não teve tempo para novas recaídas. Em Curitiba, a mãe o recepcionou com duas opções:

— É a Fazenda da Esperança ou a rua.

EX-USUÁRIOS SE DEDICAM A AUXILIAR DEPENDENTES

Quem se livrou do crack, como Luís Henrique Ferreira Fonseca, o Kike, 25 anos, resolveu ajudar a Fazenda da Esperança. Por ter submergido nos abissais da droga, é um dos que melhor entende as necessidades dos internos.

Experiência e sofrimento não lhe faltam. A partir dos 14 anos, Kike provou todas as drogas com as quais deparou — maconha, cocaína, ecstasy, LSD, lança-perfume e, o mais temível, o crack. Admite que era uma dinamite de problemas: integrava gangue de bairro, traficava para se auto-abastecer e lucrar, gostava de arrumar confusão:

— Era revoltado, briguento, boca dura...

Em 13 de fevereiro de 2004, ingressou na Fazenda da Esperança. No início, insurgiu-se: achava “um saco” rezar o terço, reclamava da comida empaçocada, das regras, desconfiava das gentilezas.

— Com o tempo, vi que os outros estavam mudando, estavam felizes...

Contrariando as expectativas, Kike cumpriu os 12 meses de abstinência e regressou a Curitiba, onde morava. Recomeçou a faculdade, trabalhou numa academia de ginástica, virou triatleta. Tudo ia bem, sem drogas, mas um vazio lhe corroía. Então, aceitou ser um dos padrinhos (assistente do responsável) na Fazenda da Esperança. Agora, é um paladino contra o crack.

A conversão do ex-pistoleiro 

O interno de 34 anos esmigalha coquinhos com uma pedra, acocorado no chão da enorme gaiola, para extrair do caroço um vermezinho apreciado pelos dois sagüis que saltitam ao redor. Despedaça os frutos com metódica paciência, alimentando os pequenos primatas que se penduram nas suas mãos e escalam seus ombros, ávidos pelo banquete de larvas.

— Gosto de fazer isso, esses bichinhos me acalmam — diz ele.

Mas já houve tempo em que a tarefa foi arrebentar cabeças humanas a tiros ou pauladas. Pistoleiro de um traficante de drogas em Porto Alegre, sua função era matar os que atrapalhavam os negócios do patrão. Eram como vermes a serem eliminados.

— Pessoas que não prestavam... — lembra, sem interromper o esmagamento dos coquinhos no gaiolão que fica no pátio da Fazenda da Esperança.

A recuperação desse interno, que não pode ser identificado, demonstra que a entidade está libertando do crack até mesmo quem se engolfou na violência. Ele assaltou, puxou cadeia e foi xerife da implacável lei do tráfico com sua pistola automática calibre .380.

A serviço do traficante, foi impiedoso. As execuções começaram em 1997, quando cinco jovens arrombaram o local onde eram guardadas drogas, crack, armas e dinheiro, na vila da Capital. Prejuízo: R$ 25 mil. Pena: pagar com juros ou morrer.

O primeiro dos ladrões foi apanhado no corredor de um conjunto habitacional. O amigo dos sagüis o amarrou na posição do frango (tipo pau-de-arara), com as pernas dobradas, os joelhos pressionando a barriga, as mãos para trás, e o surrou com a fivela do cinto, na região dos genitais, onde mais dói. Depois de obter a confissão do paradeiro dos outros, eliminou-o com um tiro. O corpo foi jogado num valão. Os demais tiveram o mesmo fim.

CURRÍCULO DE MORTES TROCADO POR DEVOÇÃO À BÍBLIA

Como pistoleiro, a missão era não tolerar “chinelagens” no bairro. Pequenos larápios que roubam mulheres na parada do ônibus, furtam roupa de varal, assaltam o armazém e surrupiam o botijão de gás da faxineira, com o propósito de obter dinheiro para comprar drogas, são chamarizes da polícia. Na primeira vez, ele avisava o faltoso:

— Ô, meu, tu tá chineleando no bairro. Se precisa de droga, pode abrir uma conta...

Se o ladrãozinho insistisse, a fissura da droga se sobrepondo ao medo, vinha a segunda advertência: o espancamento até desfalecer. Na terceira falta, não havia clemência. O infrator era capturado na rua, aos chutes e bofetadas, à luz do dia, na frente dos moradores, para escarmento público. Levado aos fundos da vila, sofria uns tiros nas pernas e nos pés (antes de morrer), se fosse dos mais cabeçudos. Ele recorda que alguns imploravam misericórdia.

— Pelo amor de Deus, não me matem.

— Mas te avisamos... — sentenciava.

Em abril, ele cansou de matar, vomitar cocaína e se empanturrar de crack. Jogou a pistola fora, entrou na Fazenda da Esperança, hoje é um dos primeiros a empunhar a enxada para a lida na horta. Antes de dormir, o dedo que apertava o gatilho escolhe, aleatoriamente, algum trecho da Bíblia para meditação. No silêncio da noite, murmura uma Ave-Maria e um Pai-Nosso. E se penitencia dos pecados.


retirado do site: Crack nem pensar!



4 comentários:

Roniel A. disse...

Amiga Xenia, uma belíssima postagem de conscientização contra as drogas, contra o crack. Já presenciei muitas cenas tão chocantes como as que narrou, e cheguei a ver famílias de amigos meus se dizimarem por conta das drogas, pois a cada dia era um objeto vendido em troca de uma pedra. Muitas mães eu vi chorando, e já tentei ajudar muitos deles. Alguns conseguiram se libertar, mas outros se afunaram até a morte. Infelizmente, é o mundo em que vivemos, e devemos lutar para conscientizar os jovens sobre os malefícios provocados pelas drogas. Abraços. Roniel.

Rosana Madjarof disse...

Xênia,

Esse texto é o relato de algumas vidas, e encontramos com elas todos os dias.

É muito difícil lidar com essa situação, e os nossos governantes deveriam empenhar-se mais para construírem locais apropriados para os dependentes químicos, pois essas pessoas são doentes, e doentes precisam de tratamento adequado.

Conheço pessoas que se envolveram com variados tipos de drogas; algumas saíram, outras não conseguiram...

Parabéns pela belíssima postagem.

Bjs.

Rosana.

Studio Mais disse...

Concordo plenamente.
Essa não é uma luta de alguns e sim uma guerra entre a sociedade e seus pecados, colhidos pela nossa geração.
Então...
Não temos tempo para lementações.
Vamos à luta!!!

Lilian disse...

Olá querida amiga Xênia,

Parabéns pela excelente matéria!
A situação dos drogaditos é lametável. É difícil sair do vício, mas não impossível. Graças a Deus há pessoas dedicadas e dispostas a se doarem em ONGS que auxiliam na internação e tratamento dessas pessoas, pois o Poder Executivo não dispensa os cuidados necessários para minorar o sofrimento dos dependentes químicos, não criam espaços apropriados com infraestrutura para atendimento qualificado e específico.

Magnífica postagem. Valeu amiga.
Carinhoso e fraterno abraço,
Lilian