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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Castigos e Recompensas


Eu e meu filho Pedro


Pais e educadores deveriam se preocupar com a chamada educação compensatória, onde o filho ou aluno recebe presentes ou agrados para cumprir seus deveres escolares, ou as pequenas tarefas do seu dia a dia. Se em casa os pais vêem na recompensa uma forma de motivá-los e dar-lhes uma força extra na hora de cumprirem suas tarefas rotineiras, na escola, o educador, em nome da instituição e do sistema, incentiva o comportamento competitivo, ao conferir honras a aquele que alcança as metas estabelecidas. Em ambos os casos, cria-se uma inevitável situação de competição entre todos os indivíduos. Na escola será entre os alunos, e em casa, entre irmãos ou com os próprios pais. Em ambientes assim, o entendimento entre as pessoas é impossível, uma vez que todos, de alguma forma se tornam adversários entre si.



Por que não deveria ser uma coisa natural o cumprimento de uma tarefa em benefício próprio? Para escovar os dentes é realmente necessário um incentivo; um convencimento mediante um agrado, ou outro tipo de persuasão? Não seria mais simples mostrar para as crianças a realidade das coisas, os efeitos da omissão caso não cumpram com seus deveres, ao invés de torná-las simples máquinas cumpridoras de ordens, sempre esperando receber alguma coisa em troca? Há algum tipo de ação em nossas vidas que façamos sem esperar absolutamente nada em troca? Duvidamos que haja. 

Como podemos esperar uma sociedade justa, se o justo para nós é a compensação, alguma forma de pagamento pelo que quer que façamos? Não precisa ser uma compensação imediata, material, pode ser um consolo espiritual, uma compensação maior para o futuro, ou além da vida, e assim por diante. Não é tudo a mesma coisa; uma busca por compensações, a exemplo daquilo que aprendemos quando éramos crianças?



Buscamos a perfeição, não porque sabemos ser imperfeitos, mas porque isso significa obter mais poder, e representa o ponto culminante no meio social onde vivemos, onde todos disputam entre si, em busca de destaque pessoal. Numa situação permanente de disputa como esta, não é possível introduzirmos em nossas vidas o que chamamos de ordem. Não podemos admitir que possa existir ordem numa sociedade onde a disciplina tem que ser obedecida à base da força, das leis, o que caracteriza claramente falta de ordem, o que indica que a falta de bom senso é a única realidade que temos. 

Por isso mesmo, a desordem que faz parte dos nossos dias, faz nascer em cada um de nós, um sonho de uma ordem capaz de colocar tudo nos eixos. É claro que não conhecemos essa ordem, esse modelo perfeito de organização contrário ao caos que podemos ver à nossa volta. Como pais ou educadores, cientes de que o mundo, dentro da atual condição, apenas conseguirá levar o homem a mais sofrimentos e crescentes angústias, cabe a nós encontrar os meios necessários para que, através de uma correta orientação, tenhamos em nossos filhos e alunos, aliados em busca de um mundo melhor, e não meros multiplicadores do caos que já existe. 

Nessa busca, precisaríamos em primeiro lugar, nós próprios, encontrarmos as respostas capazes de operar uma transformação pessoal, de modo que de posse dessa solução, fossemos então capazes de repassarmos a eles; não no papel de instrutores, simples difusores de soluções prontas, mas como espelhos capazes de refletir pela conduta, tal realidade. De que adiantaria desejarmos mudar a mentalidade do mundo, se a nossa própria permanece nos moldes desse mundo? 

Os erros, infelizmente ou felizmente, para o homem, ainda são a principal fonte dos seus acertos. Cada erro se propõe a nos ensinar, desde que estejamos dispostos a aceitar isso como um fato. 

Um erro se presta a nos ensinar como não devemos agir, e a partir deles, se bem aceitos e compreendidos, tendem a nos favorecer. É certo que ninguém, de bom senso, deseja errar de forma intencional, e a despeito dos efeitos e malefícios que são capazes de causar à nossa volta, também é certo que deles só podemos tirar a algum proveito, se estivermos dispostos a aceitá-los, não como punições ou castigos, mas como reflexo do ser imperfeito, independente de nossa condição social, credo ou raça, que ora somos. Somos produtos de um mundo imperfeito, não podemos ser perfeitos, e a razão é bastante simples: Um mundo psicologicamente imperfeito não é capaz de produzir homens psicologicamente perfeitos. 

Ao buscar na recompensa uma forma de motivar o filho ou o aluno a cumprir seu dever natural, há aí uma grande falta de respeito; então vejamos. O incentivo por menor que seja, logo cria o hábito de que a qualquer tarefa realizada, sempre alguma coisa ele obterá em troca. Se como adultos somos motivados à elogios, ou promessa de méritos, logo a origem de tudo, tem no nosso passado o ponto de partida. Na verdade tal prática incentiva à preguiça, uma vez que a disciplina e ordem natural que cada um deveria desenvolver em sua prática diária, logo é corrompida com a idéia de que, para tudo que alguém se presta a fazer, há sempre uma compensação a sua espera. A disciplina então torna-se obrigação, e a obrigação um negócio, um meio de ganhar alguma coisa. 

Quando não somos capazes de acreditar em nossos próprios filhos ou alunos, a recompensa é o único meio de motivá-los; de extrair deles algum resultado, mesmo que seja a própria educação. Se ao incentivarmos nossos filhos a escovar os dentes após às refeições, os próprios benefícios dessa prática, o que significa a saúde dos seus dentes, deveria ser em si mesmo meio e fim, sem necessidade de prêmios ou motivações complementares. Explicar e fazê-los compreender os benefícios que obterão para si mesmos com tal hábito, deveria ser nosso papel, e não o emprego de qualquer tipo de coação. Ao coagi-los sob a força de prêmios a realizar algo que se reverterá em benefício próprio, estamos criando um indivíduo incapaz de respeitar o que quer que seja, a não ser por força de alguma obrigação ou medo. 

É a recompensa de todo nociva ao desenvolvimento do indivíduo, que antes disso, deveria pela autodisciplina, descobrir que o respeito pelo seu próximo, começa com o respeito pessoal. Aprendendo a cuidar de si porque compreendeu que é a coisa certa e sensata, que é o caminho que o tornará independente e o ensinará a respeitar o espaço alheio, ele exigirá menos dos outros, irá valorizar o esforço pessoal e alheio. Terá mais possibilidade de viver num mundo integrado e livre dos antagonismos comuns, de um mundo de disputas, próprio daqueles que trabalham numa só direção, a dar para receber algo em troca. 

Assim, nosso papel de explicar o que devem fazer, e mais importante, porque estão fazendo, é fundamental. De pouco serve exigirmos que nossos filhos passem anos e anos numa escola, sem contudo, lhes explicarmos porque estão fazendo isso; não podemos deixar isso na mão dos educadores, eles não o farão. Precisamos ir além e enumerarmos para eles, de forma compreensível, todos os benefícios que deverão esperar de tal esforço, isso é respeito, é o mínimo de um máximo que poderíamos dispensar à eles, se houvesse interesse de nossa parte. Faríamos isso de boa fé, se tivéssemos a certeza de que seríamos imediatamente, de alguma forma, recompensados. 










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