Mensagem do dia

Estude! Saber é o maior diferencial que existe!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Oração de uma mãe super desesperada




Deus, meu oriente-me em minha causa, pois sei que para ti não é perdida. 
Dai-me uma gota de esperança, uma luz. 

Deus, sempre fui boa pessoa, honesta e batalhadora. Sonhei em constituir uma família e vivi por ela e para ela. Mas vi a cada dia, meu sonho de família feliz esvaindo-se de mim. Um dia adormeci e quando acordei, não gostei do que vi. 

Deparei-me com uma pessoa estranha, que ao olha-lho mais de perto, não o reconheci. Percebi que meus sonhos estavam espalhados pelo chão, tentei recolhe-lhos, mas não consegui. Vi que era tarde demais. Enquanto lutava para salva-lo, minha família ruía.

Cheguei a conclusão que perdi o controle da situação de diversas maneiras, constatei que falhei ao tentar ajudá-lo. 
Mergulhei no dissabor da perda e na corrente das mães desesperadamente desamparadas e desprovidas de esperança. 

Me sinto culpada e impotente perante a situação. 

Não sei ao certo o que eu poderia ter feito para modificar o triste quadro em que me encontro agora. Me sinto vazia e infeliz... 

Lembro-me de meu filho brincando a poucos dias atrás, com roupa de escola, correndo pelo quintal, sorridente e feliz. Hoje, vejo o sorriso de minha cria dia após dia se apagando. 

Seus brinquedos foram abandonados e trocados por doses. Daquela criança feliz e arteira, nada restou... 

Deus, em que momento do caminho meu filho se perdeu? Por que eu não estava lá? Por que ele se escondeu... 
Sempre o protegi da maneira que eu podia. Dei-lhe o melhor de mim, dos meus anos e dias, dei-lhe minha força e alegria.

Ensinei-lhe valores e dei-lhe exemplos de honestidade. 
Sonhei em fazer dele um grande homem e parti ao encontro deste sonho, mas ele era só meu, sonhei sozinha... 

Ele rejeitou tudo que lhe dei e acabou negando a si mesmo. 
Agora me vejo aqui, chorando por suas partidas bruscas, rumo a insanidade.
Senhor, dizei-me o que fiz de certo e errado. Preciso saber. Por mais dura que seja a realidade, sei que ainda posso suportar um pouco mais. 

Nada pode ser pior do que conviver com a culpa e duvida, uma dor constante que me atormenta noite e dia.

Diga-me senhor, foi brinquedos demais ou de menos? Foi dito muito sim e pouco não? Foi falta de castigo, conversas abertas e longos diálogos? Fui permissiva? Fui muito passiva? Amei demais ou de menos? Vigiei pouco ou em demasia? 

O que eu faço senhor? Choro paralisada e espero o trágico final ou luto por ele com todas as forças que ainda me restam? Já não sei mais o que fazer. 

Sinto-me confusa. Meu coração sangra e por mais que eu pense, não encontro respostas. Não consigo encontrar o fio da meada, um caminho, uma luz... 

Já perdi as contas das vezes que eu o procurei pelas madrugadas. Já chorei implorando que ele me ouvisse. Já pedi para ele deixar as drogas, me arrastei... 
Já gritei, ameacei, tranquei e nada funcionou... Tudo parece-me como sempre, e a cada dia, piora mais e mais. Nada acontece senhor e sou testemunha ocular de um suicídio profundo e lento, dia após dia.Posso ver seus cortes sangrando a alma. 

O que acontece senhor? Meu filho não me ama? Ele quer encontrar a própria morte? Quantas duvidas... Minha mente oscila sob o efeito bulmerangue da decepção. 

Quantas perguntas vazias, constantes e perturbadoras, sem respostas e esperança aparente. 
Ás vezes, quando ele aparece, me permito acreditar em suas mentiras e depois sofro por ter cedido as suas manipulações. Me sinto enganada, mas eu mesma me permito. 

Não atender a um pedido dele me parece fardo pesado e sempre cedo. Tenho que me agarrar em algo para continuar suportando, nem que seja em suas mentiras. 

Por que tenho que passar por isso meu Deus... Onde exatamente errei? 
Dei-lhe escola, apoio, ombro... mas ele virou as costas para tudo que ofertei-lhe. Esqueceu-se de mim, de si, dos amigos, dos estudos. Desistiu dos próprios sonhos para viver um pesadelo,perdeu os anseios pela própria vida... 

Senhor, quantas madrugadas não durmo. Rolo na cama sem sono, pensando onde ele está. Falo contigo de forma desesperadora, esperando uma luz e alguma resposta. 

Choro quando vejo seu lugar vazio a mesa, e me pergunto será que ele já comeu? Será que está bem? Sua vida está segura? Será que o verei de novo?

Não sei o que pensar, Senhor... Minha cabeça gira, penso que já não a mais nada a fazer, a não ser esperar por trágicas notícias. 

As vezes, choro escondida e fico amargurada quando me perguntam por ele. Choro por que sei que como mãe, eu deveria saber onde meu filho está e não sei. Então, mergulho em um poço sem saída, sem fim e sem chances de recomeço. 
Penso que cheguei ao fim da linha. Preferia morrer do que vê-lo assim em queda livre, rumo ao precipício. 

Rezo todos os dias para que ele não fique preso nos braços da morte. 
Senhor, por favor, tu que amaste seu filho, mas o entregaste ao sacrifício, me oriente e não o tire de mim. Daí-lhe uma outra chance. Ele era uma pessoa feliz mas a droga o transformou em uma pessoa que ele não queria ser. O levou a fazer coisas que ele não queria fazer. Um dia o monstro assumiu e meu filho desapareceu. Digo isso por que via seu sofrimento a cada chegada, hoje, ele já não vem mais... Entregou-se de uma forma covarde e absurda. Abdicou de si mesmo, do meu amor e da própria vida. 

Senhor, estou disposta a fazer o que for preciso para ter meu filho de volta. Diga-me que eu imediatamente farei... Prontamente obedecerei. 
Deus, me conduza por este caminho sombrio. Faça- me acreditar que não estou só. Mostre-me pelo menos uma pequena luz no final deste longo túnel , dai-me um filete de esperança. Diga-me que tu me escutas quando oro e durmo em meio a lágrimas e soluços.




RESPOSTA DE DEUS

Filha minha, não te afogues em desespero e desesperança. Tu trabalhaste duramente e dignamente, por longos anos. Perdestes noites de sono, dias a fio, para dar uma vida melhor á seu filho. Comprou-lhe os brinquedos que não podia, pagou-lhe os estudos. Muitas vezes abdicou do lazer e fez sacrifícios em prol de sua cria. 

Abriu mão de si mesma, por ele. 

Não se sinta culpada, você não é responsável pelo caos que se instalou na vida de seu filho e por suas escolhas erradas. Todos, SEM EXCEÇÃO tem liberdade de escolha. Seu filho está optando por morrer e a culpa não é de ninguém. Seu filho precisa de ajuda, mas só ele poderá se ajudar, porém ele tem que querer. Não adianta rogar a Deus, aos santos, aos céus, ele é responsável por cada passo que deu em direção ao precipício. Pagará então o preço que tiver que pagar por suas insanidades. 

Filha minha, bem que sei que se tu pudesse morreria por ele, mas isso não é possível. Deverás deixa-lo sentir a dor que tiver que sentir e não poderás tomas as chibatadas da vida por ele. Não poderás tomar para si o fardo de seu filho e nem modificar o que ele não quer que seja mudado. Siga sem culpa. Não posso impedi-la de sofrer, mas posso amenizar sua dor quando afirmo-lhe que a vida de seu filho está em minhas mãos. Vejo seu passos e o protejo. Mesmo não aprovando seus comportamentos, eu o perdoo todos os dias. 

Filha minha, faça a sua parte e siga sua vida, pois eu, em minha infinita sabedoria, dei uma para cada ser humano e dei-lhes também o livre arbítrio. A capacidade de escolha e o dom precioso do discernimento é uma dádiva. 

Sei que a capacidade de percepção de seu filho está abalada, mas ainda existem raros momentos em que ele se questiona e vem até a mim perguntando até onde vale a pena continuar assim? 

Digo-lhe mansamente que ele pode parar com todo este sofrimento quando quiser, mas ele se mostra incrédulo, acho que perdeu a fé em si mesmo.
Filha minha, ame –o com todas as suas forças mas não facilite sua vida com o uso de drogas. Amor demais também mata... Ame-o mais o deixe escolher o caminho a seguir, isto é um privilégio. 

Aprenda a dizer não com acertividade. E, siga até o fim com suas decisões. Não ceda a seus choros e lamentações, nem acredite em suas manipulações e promessas. contra fatos não existem argumentos. 
Proteja-se e desligue-se emocionalmente, assim você estará ajudando para que ele tome uma decisão mais rápido. Cuide-se para que ele a encontre refeita emocionalmente quando ele precisar e realmente quiser ajuda. 

Pense nele com carinho e misericórdia, mas não viva e morra por ele. Continue orando e entregando-me a vida dele, a cada dia e eu me encarregarei do resto. Tenha fé. Eu sempre farei o que for melhor, esteja certa disso. Fique calma e sabedora que tu cumpristes a sua missão o melhor que podia. 

Eu sempre olho por ele e dias desse o vi cabisbaixo e chorando. Ele pedia forças a mim para sair do estado deplorável em que se colocou. Implorava por forças para mudar. Me pedia coragem para modificar sua vida e me pedia para levá-lo comigo, pois não aguentava mais sofrer... Respondi-lhe que a dor é inevitável, mas o sofrimento é puramente opcional.

Vi que ele começava a se preparar, ao sentir-se derrotado estava encontrando sua fortaleza.
Muitas vezes, ele lembra-se de mim... Na calada da noite, nos becos e nas horas de perigo ele diz: Meu Deus, se me livrar dessa eu nunca mais vou usar drogas, mas são só promessas, quando o livro, ele recomeça todo o processo de destruição de novo. 

Eu sempre estou lá e observo tudo, como pai zeloso que sou. Muitas e muitas vezes quando ele pensa que está sozinho, eu o carrego em meus braços e o coloco a salvo e concedo-lhe o livramento. 

Mãe... Não pense que seu filho não a ama, ele lhe parece tão incessível, é que seus sentimentos estão adormecidos por causa das drogas. Asseguro-lhe que ele não a esqueceu. Dentro de seu peito ainda pode senti-la e quando você chora, por um instante, em um lampejo de sanidade, o coração dele chora também... 

As vezes, ele pensa será que ela já está dormindo? O que vou dizer a ela se ela gritar ou me amaldiçoar quando eu chegar em casa? Qual mentira desta vez vou ter que inventar para que ela sofra menos? Será que ela ainda me ama? 
Ele está cansado, mas não se rende. As vezes, promete a si mesmo parar, mas a dependência é mais forte e a cada dia o faz mais fraco. 
Daquele rapaz sobrou muito pouco, mas todo dia dou a ele um sopro de vida, uma nova chance. Estendo meus braços na esperança de abraça-lo com força, mas ele foge. Foge de mim, de si mesmo, da vida, dos que o amam... 

Filha minha, Aquiete o vosso coração, confie em mim e deixe-me agir. Não existe caso sem volta, nem condição sem esperança, eu sou simplesmente o Deus do impossível!





 Retirado do blog so por hoje nunca mais de Darléa Zacharias

(Trecho do livro " O passageiro da agonia")

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Fazendo as coisas certas, pelos motivos certos!





Eu e a minha mania de criar atalhos para caminhos que ainda tenho a percorrer.

Ah, maldita preguiça de passar por estágios, queimando etapas essenciais para o meu crescimento mental, emocional e espiritual.
Minha dificuldade de seguir em linha reta é quase inacreditável. No passado, foi este imediatismo que me meteu em apuros.

A dificuldade de seguir regras, de esperar o tempo certo, revelou em mim o egoncentrismo.

Aquela mania de dar o meu "jeitinho" para tudo, foi o motivo de tantas e tantas insanidades.
O antigo e erroneo pensamento de achar que posso criar um fim alternativo para cada cena da minha vida, me tirava os pés do chão.
Sou teimosa, pretenciosa e ainda hoje, se eu permitir, viajo no meu mundinho de Bob.

Preciso aprender a cada dia esperar o tempo certo para as coisas.
Preciso aprender a traçar metas, fazer a minha parte e esperar os resultados dos meus esforços, para que as coisas comecem a acontecer. E, se, o resultado não for da maneira como esperei, simplesmente tenho que aceita-lo e tentar de novo.

Prepotência, arrogância, autoritarismo nunca me levaram a nada. Minhas ideias mais brilhantes me levaram a usar droga. Meus "achismos" me levaram a cometer muitos enganos...

Quantas vezes fiz as coisas a meu modo e falhei...
Quantas vezes busquei resolver as coisas no peito, no grito e coloquei tudo a perder...

Tenho que aprender a sair da frente e deixar Deus passar.

Ou estou dentro do sistema ou estou fora, não existe meio termo nem barganha.
Não posso ficar achando que posso passar por cima das pessoas para alimentar o meu bel prazer.

As pessoas se cansam dos meus comportamentos egoístas e eu também...

Por que é tão difícil fazer as coisas certas pelos motivos certos? Ah, talvez seja pelo fato de ter feito errado por tanto tempo. Eu me acostumei a andar pela linha sinuosa da sensação de estar me dando bem em alguma coisa. Me habituei a me sentir esperta. Quando passava a frente de pessoas que estavam cumprindo etapas, eu me vangloriava.


 Mas, na verdade, agindo com deslealdade com os outros, eu estava perdendo todo o meu respeito próprio e deixando de aprender a fazer as coisas com acertividade.

Ah, santa esperteza que roubou a inocência dos meus dias... Que me impediu de crescer e agir certo principalmente comigo mesma.
Vejo hoje que eu sabotei a minha vida.
Eu me coloquei diante a emaranhados de problemas com a minha mania de achar que tudo sei, tudo posso, é tudo comigo mesma...

Através destes comportamentos, fechei portas, perdi pessoas, e quase me perdi.
Sei que hoje me foi retirado o véu da ignorância. Sei que devo incluir no meu contexto de vida um comportamento afável, educado, amoroso comigo e com o meu próximo. 


Já não importa se agindo assim levarei um tempo maior para alcançar minhas metas. Mas, pelo menos, estarei certa de que estou dando o meu melhor em prol do meu crescimento pessoal e interpessoal.

Como é bom o sabor das conquistas. Como vale a pena saber que cheguei onde cheguei, sem pisar nas pessoas e sem atalhos.

Passei tudo que tinha que passar. Amarguei, reclamei, pensei em desistir, mas só pensei, não desisti e nem desisto...

Cumpri o tempo e não passei por cima do direito dos outros, nem feri os meus.
Me lancei a recuperação, sabendo que ela dependia de mim e do quanto eu estava disposta a mudar.

Parar de usar droga não é difícil, mas se manter limpa e no caminho da recuperação, é bem trabalhoso.

Quem pensar que recuperação é só tapar a garrafa, grampear o papel e apagar o cigarrinho do capeta, está se enganando...
Para se recuperar é preciso muito mais do isso... É preciso uma mudança radical de comportamento.
É preciso mudar o pensamento distorcido por anos de adicção, para mudar o sentimento.
É preciso abrir mão da própria vontade agora, para colher os louros da vitória lá na frente.
É preciso engolir urubu com pena e tudo e matar um leão por dia.
É preciso até mesmo dar razão a uma pessoa, mesmo sabendo que estamos certos. Pois, ao darmos a razão a quem a deseja tanto, ficamos com o aquilo que realmente interessa, que é a felicidade.

Se recuperar, não é dar a outra face quando somos feridos, mas é saber sair de cena, abandonando aquilo que nos faz mal.
É aprender que a raiva só é ruim para quem sente.

É saber que a nossa doença se alimentará daqueles sentimentos que mais cultivarmos.
Existe dentro de nós um cachorro branco e um preto. Eles representam o bem e o mal de cada um. Aquele que suprirmos melhor, se desenvolverá mais depressa.
Existe dentro de nós um médico e um monstro. Nós somos responsáveis pela nossa recuperação e também somos responsáveis por manter esse monstro preso. Esse monstro é a adicção. É tudo aquilo que no passado nos levou até as drogas. É preciso banir o monstro, não alimenta-lo com velhos ressentimentos e todos aqueles comportamentos que fizeram de nós quem somos. Seres vacilantes e inseguros.

Hoje, podemos sentar com calma e rogar ao Deus da nossa compreensão por orientação em nossa caminhada. Podemos modificar tudo aquilo que quisermos, sem ter que usar droga.

Podemos nos transformar em alguém especial e se encaixar novamente na sociedade.
Devemos reparações a ela e a nós mesmos, por que lá no fundo, sabemos como é se sentir excluído.
Lubridiar os outros parece uma ideia genial a principio, mas logo o lado cômico desaparece e temos que arcar com o amargo das consequencias.
Sei que em nossa adicção prejudicamos muita gente, mas também prejudicamos a nós mesmos.
Toda ação tem reação. Tudo que fizermos de bom ou ruim refletirá em nós, é só uma questão de tempo. Ficaremos respingados com tudo que jogarmos contra os outros.
Hoje, quero mudança em minha vida. Quero mudar primeiramente por mim.
Quero ser uma pessoa melhor, mais madura e bem mais consciente do meu eu.
Quero coisas boas, novas e sensatas.

Não quero mais viver a margem da sociedade, nem na linha entre a loucura e a razão.
Não quero ser "esperta", Só quero ser eu mesma.
Quero fazer parte da grande roda da vida. Sabendo que ela gira e gira e não pára nunca.
Não quero ter a sensação de estar tentando subir em uma escada rolante pelo lado contrário. Quero subir os degraus pelo lado certo da escada, da maneira certa, sem atalhos...

Como é bom vivenciar as minhas conquistas pelos méritos da minha total consciência de meus atos e por merecimento.
Só por hoje...

Darléa Zacharias
(Texto do livro" O passageiro da agonia",

Ficar limpo não é fácil, nem difícil, é possível...



Não existe uma formula para se recuperar. Cada adicto tem que passar pelos seu processo de crescimento individual.

Embora a adicção seja uma doença progressiva, incurável e fatal, o grau da doença e o ritmo da recuperação, varia de pessoa para pessoa.

Preciso praticar o programa de 12 passos em sua essência, pois sei muito bem onde a adicção me levou.

Só eu sei os perigos que vivi, os caminhos que percorri. Quantas coisas fui capaz de fazer, quantas pessoas pude machucar, o quanto me feri, por mais uma dose.

Cheguei ao ponto de me perguntar que tipo de monstro eu havia me tornado, para agir daquela forma comigo, e com as pessoas que me amavam. Felizmente, em recuperação, descobri que eu não era nenhum bicho de 58 cabeças. Eu era apenas uma adicta, que fazia qualquer coisa para me manter fora da minha realidade.

Tudo ficou mais claro para mim, quando descobri que a adicção era uma doença, progressiva, incurável, e fatal que matava desmoralizando. E, que não era aquela ultima dose que me arrebentava, mas sim a primeira.

Descobri que eu sofria de uma espécie de alergia mortal as drogas, e que elas, por mais alto que me levassem no início do uso, mas para baixo ela me deixavam na volta.

Percebi que eu não tinha mais condições de viver alternado entre estágios de euforia antes do uso, e depressão profunda, depois que tudo terminava.

Sei que ainda tenho uma longa estrada de recuperação para percorrer e vou percorrer, mesmo que não seja fácil. Eu quero e preciso vivenciar isso.

A adicção é uma doença que come pelas beiradas. Ela conhece os meus pontos fracos. Posso até ir mais além, e dizer que ela anda, pensa e fala dentro de mim.
Sei que é difícil para alguém que nunca usou drogas entender o que se passa na cabeça de um adicto. É complicado até mesmo para eu mesma compreender. É muita informação a ser processada para alguém que tem tantas sequelas,rs.

O pouco que consegui descobrir sobre está doença, está me ajudando a me recuperar a múltiplos anos, só por hoje.

No início da minha recuperação a vida me parecia insuportável. Tudo era muito novo. Eu sentia muita raiva. Brigava com as pessoas, como se elas tivessem culpa dos meus fracassos. Como se elas fossem responsáveis por eu estar tão vulnerável e perdida. Para melhorar o meu humor e trabalhar a raiva, eu me questionava pensando: Quem mandou você usar droga, Darléa? Agora, aguente o rojão sem descontar a sua raiva na humanidade!

Eu achava que seria impossível viver sem as drogas. As coisas me pareciam assustadoras e estranhas, mas eu tinha que recomeçar.

Eu me sentia sozinha. Em um mundo completamente novo, eu era o retrato da insegurança. Precisava literalmente reaprender a viver.

Embora estivesse rodeada de pessoas que torciam por mim, e pela minha recuperação, ainda assim, me faltava algo e sempre recorria a um poder superior para me amparar. Eu só sabia que teria que continuar tentando. Minha vida dependia disso.

Tive que lidar com o vazio e o buraco que a droga me deixou como herança.
Era um medo assustador de encarar toda aquela vida que abandonei durante o uso.

Tudo ainda me lembrava droga. Banheiros, sal espalhado na pia da cozinha, acetona, pessoas, lugares, coisas, pensamentos, sentimentos. Conversas curtas ou longas sobre drogas. Ah, como eu queria nunca ter ido a primeira dose. Mas, não tinha jeito, eu tinha que aprender a reformular meus hábitos, e esperar passar a vontade de usar.

O mais engraçado é que antes da recuperação, eu nunca tinha esperado a obsessão do uso passar. Eu sempre atendia seu chamado, por achar que aqueles minutos de desejo incontrolável, não passaria naturalmente, nem através do esforço.

Em recuperação, aprendi que esses momentos de obsessão não duram mais do que alguns minutos. É verdade!

Fui ficando limpa, sem muito entusiasmo. Não conseguia imaginar a chatice que seria ter que lidar com a condição de nunca mais poder tomar aquele chopinho, ou usar qualquer coisa que alterasse meu humor. Fui pega pelo programa de 12 passos, e fiquei sem argumentos, justamente na parte em que ele me dizia: Darléa, você não tem que usar só por hoje!A vontade de usar, vai passar. Como assim? Pensava eu. É bem simples, fique limpa um minuto, uma hora, um dia por vez. 

Os dias se transformarão em meses e os meses em anos...respondeu o programa de recuperação. Aí sim, a abstinência começou a ficar mais leve e comecei a acreditar, que de fato poderia funcionar , e vem funcionado.

No início da recuperação, era um fardo muito pesado pensar que o mundo se divertia usando, e eu não. A melhor coisa que eu fiz, foi ter me dado a oportunidade de me permitir ficar limpa e experimentar essa nova maneira de viver.

Ah... Como foi bom, perceber que nem todo mundo usa droga. Que é possível se recuperar, viver bem, saudavelmente e ser feliz, estando limpa.

No início, não foi fácil, tive que construir um alicerce de recuperação. Precisei me prontificar a fazer certas coisas que me permitiriam, lá na frente desfrutar de uma liberdade antes nunca imaginada. Evitei pessoas da ativa. Na verdade, essas pessoas nunca me ajudaram. Cada um sempre cuidou de si, e eu, precisava me cuidar também.

Quando eu os via na rua, apressava o passo e dizia que eu estava atrasada para algum compromisso. Na verdade, eu não tinha que dar satisfações a ninguém por não estar usando. Quando eu achava que não tinha que dar satisfações não dava, só mandava um seco xauzinho, de longe. Ninguém precisava saber o motivo da minha mudança, eu sabia, e isso era suficiente.

Para me recuperar, precisei abrir mão das noitadas e dos lugares que costumava frequentar.

Eu ainda me sentia muito vulnerável, confusa e pouco convicta do que queria, para me testar na pista.

Eu precisava sair de circulação naquele momento para me fortalecer espiritualmente.

Por mais que possamos achar que madrugada, bares e casas noturnas não interferirão em nada em nossa recuperação, interferirá sim. Lá, tem tudo que a minha doença gosta. Bebida, luxúria, conversa fiada e droga.

Como posso, com pouco tempo limpa, me iludir afirmando que já posso estar na noite? Auto engano!

Início de recuperação, foi para mim um processo doloroso. Mas, foi preciso passar por toda aquela privação, para que hoje eu tenha o privilégio de sair, curtir a vida e os prazeres que ela oferece, sem usar droga. Eu vou a praia, e a outros eventos e não os associo mais com droga.

Venho conhecendo meus limites, a cada dia. Vou a shows, me divirto, danço agarrada a minha garrafa de água mineral, e te garanto que é a maior onda. Ninguém entende nada quando me vê dançando...Devem pensar que dentro da garrafa, que seguro em minhas mãos, tem algo mais do que água mineral. Devem pensar que eu não estou pura, rs. Nem ligo...

Eu sei que preço da minha liberdade é a minha eterna vigilância. Sei muito bem quantas noites senti vontade de zuar, e sabia que não estava preparada.

Ainda hoje, tenho certas regras que me imponho para sair de casa. Se eu não estiver bem, não saio. Se sair e me sentir inadequada em determinado lugar, vou embora na mesma hora. Não vou ficar esperando acontecer algo de ruim para me render. Outros dias virão, e poderei me divertir muito, se me encontrar em um estado emocional estável.

Muitas vezes, vi pessoas bebendo e me sentia uma merda. Eu pensava que eles eram felizes, e eu não. Pura manipulação da doença.

Será que eles são tão felizes assim como a doença me mostra?Bem, não sei... Mas, eles podem usar, eu não. Eles vão embora para suas casas, para seus compromissos, para suas famílias, e eu não... Eles não gastam tudo que tem.

 Não vendem as próprias roupas, estudam, trabalham... Não convertem ouro em drogas. Suas vidas seguem quando suas doses terminam, e a minha, fica estagnada. E, pior, regride a cada dose.

Eles não chegam em casa sujos fedorentos, famintos, exaustos, depressivos e moribundos.

Eles podem usar, quem não pode sou eu.

O mundo não vai parar por que eu não posso usar. A vida simplesmente segue.

O Zeca pagodinho não vai parar de cantar, o boteco não vai fechar, só por que eu sou uma adicta. Eu é que tenho que me adaptar a condição de me resguardar de mim mesma, e das coisas que me remetem ao uso.

Sou sim, uma pessoa diferente e limitada, mas nem por isso, infeliz.
Já fiz bobagens para esta e para próxima reencarnação. Não tenho mais que lutar contra nada, tenho que me condicionar a viver limpa, é o mais sensato a fazer.

Seguem abaixo algumas das muitas sugestões que recebi, e funcionaram:

* EVITE : *PRIMEIRA DOSE DE QUALQUER DROGA * PESSOAS, LUGARES E HÁBITOS DA ATIVA. *MEDO *RAIVA *RESSENTIMENTO *AUTO-ENGANO *ACHAR QUE SABE TUDO *MANIPULAR *MENTIR *FOME

PROCURE: *PROGRAMA DE 12 PASSOS *MENTE ABERTA *HONESTIDADE *BOA VONTADE *PODER SUPERIOR *AMAR-SE *AMAR *PERDOAR *PERDOAR-SE *AUTO ACEITAÇÃO *PEDIR AJUDA *ACEITAR AJUDA *VALORIZAR-SE *PERSEVERAR

Ficar limpo não é fácil, nem difícil, é possível!

O mais será acrescentado se você apenas se prontificar a mudar.
Vá a uma reunião de 12 passos, ainda hoje. Dê o seu primeiro passo em direção a liberdade!

 Retirado do blog http://soporhojenuncamais.blogspot.com de Darléa Zacharias

Um dia limpo é sempre um dia limpo é sempre um dia bem sucedido, não importa o que aconteça.




Morra quem morrer, nasça quem nascer, não precisamos mais usar drogas.

N-a-d-a   justifica o uso. 

Por toda a vida arranjei motivos para usar. Usava por que estava frio, ou calor. Usava quando meu time perdia ou quando ele vencia. Usava por que estava bem demais, guiada pela euforia, ou usava quando estava na maior deprê. 

Hoje, NADA justifica o uso. Não tenho mais como mentir para mim mesma, culpar pessoas, lugares e situações, não posso mais me manipular. 

Se é que existe alguma razão no mundo para usar drogas, existem mil razões para não usar.

Nada pode ser pior do que a dor do uso. Aquele conhecido sentimento de derrota pós uso e a frustração de mais uma vez não ter conseguido dizer não as nossas próprias vontades. Não quero mais ficar com aquela cara de biscoito traquinas quando a onda passa. Nem ter aquele sentimento de fracasso por mais uma vez ter sido fraco e ceder aos apelos da obsessão e compulsão. 

Saber que usou uma grana que não poderia gastar, pois era de um compromisso inadiável, É DOLOROSO DEMAIS. 

A degradação moral, física e a morte espiritual tornam-se eminentes quando usamos. O sentimento de vazio e as algemas da alma me apertando, é angustiante. Aquela corrente, com uma bola na ponta, me fazendo escrava, é algo assustador. 

O uso de droga fazia com que eu me arrastasse pela vida, e só por hoje, perdeu forças e já não me aprisiona. 

Hoje sou livre e posso escolher entre ser uma ameba rastejante, ou me transformar em um ser digno e andar de cabeça erguida, tendo a certeza de que estou me tornando um ser humano melhor. 

Só por hoje, as drogas não tem mais poder sobre mim, a não ser que eu permita. 

Se a cada vontade de usar, eu ceder, quando aprenderei a ficar limpa? NUNCA!

Precisamos usar todos os motivos que temos para viver, para não usar. Sei que é uma luta diária, pois lutamos contra uma força descomunal e um poder altamente destrutivo. Por isso, temos que admitir que nunca poderemos medir forças com a adicção, simplesmente nos rendemos. Aceitamos o fato que NUNCA MAIS poderemos usar controladamente, não importa quanto o tempo passe. 

Quanto mais rápido nos rendermos a este fato, mais cedo nos recuperaremos e mais perto estaremos da felicidade. Desfrutaremos da simplicidade de uma rotina, coisa que não tinhámos antes, pois nossas únicas metas na adicção ativa eram usar, usar e usar.

Precisamos usar todo aquele velho jogo de cintura que tínhamos na ativa para "descolar" mais uma dose, para ficarmos limpos mais um dia.

Precisamos acreditar em um Deus amoroso, que faça por nós, aquilo que não conseguiamos fazer sozinhos. Precisamos de fé, perspectiva e sanidade.


NADA JUSTIFICA O USO DE DROGAS E USAR É MORRER EM TODOS OS SENTIDOS!

Só por hoje, escolha a vida, e ela te devolverá sorrisos e paz, retribuindo seu movimento positivo em direção a ela.


 retirado do blog  http://soporhojenuncamais.blogspot.com/ de Darléa Zacharias

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os 10 princípios que Maria utilizou para educar Jesus - Parte II



Alguns homens surgiram subitamente arrastando uma mulher. Ela estava esfolada e sangrando. Chorando e sem forças, ela clamava em desespero por compaixão! Compaixão!
Quem era a vítima? Uma mulher pega em flagrante adultério. Esbravejavam com o homem que dormia com ela, mas o deixaram livre. Que injustiça!

Hasteando a bandeira do moralismo, os carrascos da mulher a arrastavam e bradavam: "Prostituta! Prostituta! Você contamina nossa terra! Merece a morte!". Os sentimentos de solidariedade diluíram-se no radicalismo religioso.

Atrás dos algozes um cortejo de homens furiosos gritavam: "Apedrejem-na! Apedrejem-na!". Alguns sacudiam o pó dos pés, outros cuspiam na vítima. Ao longo da história os piores inimigos de Deus sempre foram seus defensores radicais.

Era possível prostituir-se na mente, nas intenções, nas ações, mas não fisicamente. Era aceitável estar infectado por dentro, mas não era admissível uma demonstração exterior. A sociedade era e sempre foi hipócrita!

Ao apedrejar publicamente as mulheres adúlteras, os radicais religiosos queriam que a doutrina do medo se infiltrasse como chamas de fogo no inconsciente coletivo, reprimindo comportamentos.

A multidão se aglomerou. O ritual começou. 

Não havia idade mínima para assistir a essa brutalidade. Muitas meninas, agarrando-se às vestes de suas mães, choravam ao ver a dor da miserável mulher. Entre elas havia uma pequena garota que cobria seu rosto com as mãos, mas deixava escapar por entre os dedos flashes da cena da mulher que agonizava.

Seu nome era Maria. Como todas as outras meninas do seu tempo, ela deve ter assistido a diversas cenas como essa. Causava-lhe arrepios pensar em um dia cometer o mesmo sacrilégio. Como toda criança, é provável que a pequena Maria tenha perdido o sono relembrando os gritos e as cenas terríveis que vira no dia anterior.

Sartre, como Freud, acreditava que nos primeiros sete anos de vida arquivamos algumas experiências emocionais reprimidas, nas quais temos dificuldades de colocar para fora. Dentro de nós há uma criança que exige reparos por tudo o que viveu.

A pequena menina cresceu. Tornou-se uma jovem vivaz, instigante, estava com cerca de 15 anos. A cultura de seu povo e as dificuldades de sobrevivência da época faziam as mulheres amadurecer mais rápido e assumir compromissos sociais mais cedo. Mas Maria ainda era uma adolescente.

Como muitas jovens de sua idade, já estava noiva. Na cultura judaica, o noivado era tão sério como o próprio casamento. Estava prestes a finalizar o ritual do casamento, mas não havia mantido relações sexuais com seu futuro marido, José, um carpinteiro sem grandes posses, que carregava pesadas toras e as lapidava para sobreviver. Tinha as mãos calejadas pelos atritos das ferramentas que usava e a pele ressequida pelo calor do sol. Era um homem acostumado ao trabalho pesado.

UMA VISITA INESPERADA, UMA MUDANÇA DE ROTA

Quando tudo parecia transcorrer tranquilamente na vida da jovem Maria, e principalmente em seu casamento, um acidente de percurso aconteceu.

Maria estava em seu pequeno e humilde aposento quando, de repente, um estranho ser chamado Anjo Gabriel apareceu. O nome Gabriel significa "homem de Deus" ou "valente de Deus". Esse enigmático ser está sempre envolvido em anúncios espetaculares.

O mensageiro do Autor da existência fita a jovem Maria e transmite-lhe uma inusitada mensagem na qual traz uma intrigante proposta: conceber uma criança sem a participação de um homem.

E adiciona à indecifrável proposta a afirmação de que o menino que a virgem engravidaria seria chamado de filho de Deus2. E, para completar a surpreendente notícia, declara que o menino terá a mais notória incumbência: libertar seu povo e, por extensão, toda a humanidade.

A notícia era deslumbrante, capaz de deixar sem fôlego qualquer um que pensasse minimamente em suas consequências. Não era uma proposta política de libertação de fora para dentro, mas de dentro para fora, sonhada pela psicologia e almejada pela filosofia.
Será que essa proposta foi feita a Maria porque ela era ingênua? Será que Maria alcançou o seu conteúdo? Nos textos posteriores ficaremos espantados ao detectar que sua cultura e inteligência eram fenomenais. Maria entendeu nas entrelinhas a sua dimensão.

As características da personalidade dessa jovem suplantavam a dos intelectuais de sua época. A quase totalidade dos habitantes de Israel desconhecia a arquitetura da liberdade interior, sonhava apenas com a liberdade social. Mas veremos que Maria conhecia ambas.

O povo judeu, como muitos outros povos, estava sob o jugo do Império Romano. A máquina estatal de Roma era imensa e pesada. Senadores, legiões de exércitos, serviçais, todos dependiam dos pesados impostos pagos em moeda corrente ou em grãos pelas nações subjugadas.

Um mensageiro de Deus apareceu para uma adolescente dizendo que ela conceberia um menino libertador, uma dádiva para a humanidade. Mas qual a garantia jurídica? Que forças armadas sustentariam o libertador? Nenhuma. O resgate da humanidade dependia de uma adolescente e de sua fé.

GRÁVIDA SEM A CARGA GENÉTICA DE UM HOMEM

O Anjo disse para ela se alegrar, porque era uma bem-aventurada, uma mulher feliz, porque Deus se encantara com ela.
O mensageiro de Deus parecia vir ao encontro de uma busca incessante de Maria, pois, apesar de não ser uma religiosa típica, nem filha de sacerdotes, veremos que sua relação com Deus era estreita, íntima, ultrapassava os limites da religiosidade.
O processo de concepção de Jesus entra na esfera da fé, portanto, não há como discuti-lo de modo científico. Independentemente dos atributos da fé, a análise dos textos em várias versões demonstra que o nascimento de Jesus foi programado pelo Deus Altíssimo, o Autor da existência.


A psiquiatria e a psicologia ficam atónitas com a afirmação das Escrituras do Novo Testamento, a qual, segundo elas, esse Deus incompreensível, que está muito além dos parâmetros do tempo e do espaço, amou a humanidade a ponto de enviar seu filho para penetrar nas fibras das experiências humanas, objetivando tratar dos seus conflitos de dentro para fora, estimular seu aparelho psíquico a produzir anticorpos contra a intolerância, agressividade, discriminação, assassinatos, ciúmes, inveja.

O Anjo disse: "Alegra-te muito favorecida. Eis que engravidarás e darás à luz um filho. E o seu nome será Jesus. Ele será grande e será chamado de Filho do Altíssimo"4. E acrescentou que o seu reinado extrapolaria as leis da física, seria eterno, não teria fim.
Antes de ter relações sexuais com seu marido, Maria achou-se grávida do Espírito Santo. Como isso é possível? Crer nesse fenómeno entra novamente na esfera da fé, portanto, ultrapassa os limites deste livro, mas é inquestionável que a proposta feita à jovem Maria foi estupenda.
É uma proposta exuberante para gerar uma nova humanidade, em que os grandes servem os pequenos, onde não há discriminação de pessoas, nem classes sociais.
Como formar um ser sem a participação do espermatozóide masculino? Hoje, através da clonagem, sabemos que não é necessária a participação de um espermatozóide, pois é possível extrair a célula de um animal, que em condições especiais começa a se multiplicar, gerando uma explosão criativa, desenvolvendo um embrião normal, à imagem e semelhança do progenitor. Deus usou o processo de clonagem?

Se admitirmos os fatos da concepção do menino Jesus como reais e não como conjecturas, podemos inferir que o Autor da existência fez o primeiro processo de clonagem da História.
Todo o código genético de Maria foi usado para formar um ser único, inigualável, que seria chamado de filho do Autor da vida, cujo destino era sublevar paradigmas e reescrever a história da humanidade.

O MEDO DE SER APEDREJADA

Maria aceitou participar do sonho de Deus, que se tornou seu próprio sonho. Porém, não tardaria para esse sonho converter-se em pesadelo, trazer riscos inimagináveis. Maria aceitou engravidar de um modo antinatural. Quais seriam as consequências desse convite? O risco de ser apedrejada sumariamente!

Apenas esse fato poderia trazer recordações estressantes e produzir um desgaste no córtex cerebral de Maria, gerando pavor e ansiedade e, como consequência, uma série de sintomas psicossomáticos.

Se Maria pensasse em todas as consequências desse ato não teria fé, imergiria num mar de dúvidas e medo. Quem pensa em todos os acidentes do caminho paralisa-se.

Todas as mulheres que engravidavam de outros homens morriam apedrejadas. O convite de Deus iria submeter Maria a percorrer os becos do terror. Quem conseguiria entender essa gravidez? A quem explicaria o inexplicável? Que parente a acolheria? Que amiga lhe daria ouvidos? Que religioso a entenderia?

O Anjo disse que ela passaria a ser a mais exaltada entre as mulheres. Mas quem aceitaria tal exaltação diante do risco de ser mutilada? É como dizer: "Hoje darei a você todo o dinheiro do mundo, mas amanhã você estará morto". Quem desejaria ser o mais rico do cemitério?
Não apenas o risco de ser apedrejada a rondou, tempos mais tarde outros eventos angustiantes atingiram a sua história. Jamais uma mãe se alegrou tanto com a notícia e, com o passar do tempo, derramou tantas lágrimas.

OS GRANDES RISCOS VIVIDOS POR JESUS EM NAZARÉ

Jesus resolveu iniciar o discurso sobre o projeto de Deus no lugar menos recomendado, na cidade onde cresceu, Nazaré. Parece que ele gostava de enfrentar situações difíceis.
Era uma tarde ensolarada e resolveu ir até a sinagoga local. O público era grande. Todos estavam em silêncio esperando a leitura de um dos livros sagrados. Segundo a tradição, esperavam que algum fariseu ou escriba se levantasse e lesse um determinado texto e o interpretasse.

Jesus não teve dúvida, levantou-se e foi para a frente da plateia. Muitos que ali estavam brincaram com ele. Folheou o livro de Isaías atentamente e encontrou o texto do capítulo 61. Sua leitura foi eloquente e sua interpretação, chocante para os presentes.

Nesse texto está escrito que Deus misteriosamente enviaria um Messias para libertar os cativos, recuperar a visão dos cegos, aliviar os oprimidos e anunciar o ano aceitável do Senhor.
O Messias era aguardado havia séculos pelo povo de Israel. Muitos enchiam seus pulmões ao falar dele. No inconsciente da população, as imagens de um homem valente, acompanhado de escoltas e de mantos escarlates se mesclavam. Ele libertaria Israel do seu sofrimento e em especial do jugo dos romanos. Seria um novo tempo.

Quem seria tal Messias? Quem teria essa magna incumbência? Todos os presentes ansiavam por saber como Jesus interpretaria essa difícil e inspiradora passagem. Talvez anunciasse que o Messias viria em breve, ou em dez anos, ou em cem.

No início de sua preleção todos admiraram-se da sua eloquência. Mas, de repente, Jesus fitou a plateia atentamente e disse: "Hoje essas palavras foram cumpridas".

A plateia ficou assombrada. Fora pega de surpresa. Perguntavam uns aos outros: "Ele se declarou o Messias?", "Como pode ser isso?", "Um pobre carpinteiro de mãos calejadas?", "Impossível!", "Nós não conhecemos seus pais! Que heresia!".

A população de Nazaré sabia que ele era discreto, inteligente, gentil, mas se declarar o sonhado Messias era demais. Um insulto inaceitável para os mais religiosos.

Essas reações indicam que Maria correu muitos riscos quando o concebeu. Ou ela ocultou a identidade do filho em Nazaré ou, o que é mais provável, ninguém entendeu os fatos "inexplicáveis" ligados à sua concepção.

Jesus escandalizou os ouvintes. Iniciou sua trajetória com o risco sumário de morrer. Seguro, ele não se retratou nem desfez mal-entendidos. Para ele não havia mal-entendido. Se ele se calasse, seria admirado, mas quem conseguiria contê-lo? Quem conseguiria silenciar esse homem?

Sua mãe, quando o concebeu, correu o risco de ser apedrejada pela vizinhança. Agora, seu filho corria o risco de ser linchado por pessoas que conviviam com ele.

Ao ouvir sua declaração, um grupo de homens se enfureceu. Agarraram-no com violência e o levaram para um alto penhasco, ameaçando jogá-lo de lá. O tumulto foi grande. A agressividade dos instintos atingiu o auge, mas felizmente ele escapou.

Após sair do clima de terror, o Mestre dos mestres afirmou um sábio princípio psicossocial que é uma verdade indiscutível até os dias de hoje: "Nenhum profeta será bem recebido em sua própria casa". A inveja surge normalmente entre os iguais. E um vírus que nunca morre. Quando um entre os iguais desponta, o vírus da inveja que está incubado multiplica-se incontrolavelmente.

Por isso, ninguém que tenha uma grande proposta, novos caminhos, uma nova teoria será aceito sem traumas na sua universidade, na sua classe profissional, na sua empresa. Quem quer propor grandes ideias tem de correr o risco injusto da inveja.

FALHA NA EDUCAÇÃO PÓS-MODERNA

A educação pós-moderna é a da era dos computadores, da internet, dos recursos multimídia. Embora ela tenha trazido vantagens visíveis, são gritantes as suas falhas. Para dar maior praticidade a este livro, sempre que possível usarei os princípios da educação do menino Jesus para comentar algumas grandes falhas da educação atual e apontar caminhos.


Toda vacina expõe o corpo a antígenos, que, muitas vezes, é um vírus atenuado. O objetivo é que o corpo receba um choque metabólico para produzir anticorpos, para que um dia, quando a pessoa for infectada com um vírus ativo, possa combatê-lo.

Aqui há um princípio psicológico e pedagógico. Muitos pais não sabem como ajudar seus filhos a construir "anticorpos" contra as intempéries da vida. Muitos querem poupar seus filhos dos riscos sociais e existenciais, criam-nos numa bolha artificial. Uma educação completamente diferente da cio menino Jesus.

Claro que os computadores e a internet podem ser úteis para o desenvolvimento de algumas áreas da inteligência. Mas um computador não critica, não rejeita, não pressiona, não provoca ansiedade ou frustrações existenciais, enfim, não estimula o sistema "auto-imune" da psique.
No passado, as famílias tinham vários filhos. Os irmãos provocavam uns aos outros, estimulavam a reação, a competição, a superação. Hoje, muitas famílias têm apenas um filho. Ser filho único e ainda gravitar na órbita de um computador dificulta mais ainda a educação.
É preciso ensinar aos jovens que a vida é um contrato de risco, levá-los a compreender que há um mundo lá fora diferente do espaço controlado da sala de aula, da sala de casa e do ambiente da internet.


Mas onde estão os jovens que correm riscos para materializar seus sonhos? Onde estão os jovens que sabem lidar com eventos inesperados e angustiantes? Muitos são tão frágeis que se paralisam diante de uma vaia, não apostam mais em si mesmos depois de uma derrota profissional ou afetiva. Os fracassos deveriam torná-los mais fortes, mas os fragilizam.

Eles não entendem que muitas pessoas na sociedade que conquistaram o sucesso já experimentaram os patamares mais baixos do fracasso. Muitas pessoas que hoje são aplaudidas já foram, em algum período de sua vida, vítimas de deboche e desprezo.

A melhor maneira de gerar filhos e alunos frágeis diante dos desafios da vida é oferecer-lhes um ambiente isento de estímulos estressantes. A ausência desses estímulos pode ser tão prejudicial para o desenvolvimento da inteligência como a presença maciça deles. Jovens educados em ambientes superprotegidos só conseguem brilhar se as situações forem previamente conhecidas.

É fundamental que as escolas, inclusive as universidades, construam laboratórios de riscos sociais, emocionais, profissionais, onde se criem ambientes que simulem ("vírus atenuados") rejeições, perdas, frustrações, competições.

Nesses laboratórios têm de haver liberdade para serem construídas novas ideias e formas de defendê-las, bem como maneiras de treinar a garra para vender produtos e serviços difíceis de ser explicados. Lembre-se de que Maria teve de explicar o inexplicável e sobreviver às incompreensões.

Esses laboratórios contribuiriam para desenvolver habilidades para lidar com as intempéries reais da vida, produzindo ânimo para os jovens enfrentarem novos desafios. Caso contrário, eles poderão sentar por décadas nos bancos de uma escola e se tornar apenas frágeis servos do sistema social. Somente a exceção brilhará. A maioria dos alunos ficará muito aquém de onde outros já chegaram.

A educação do menino Jesus não é a que busca o sucesso exterior, pois este é mera consequência, mas é a educação que desenvolve o sucesso interior, as mais excelentes habilidades intelectuais e emocionais.

Devemos nos lembrar de que um dos princípios que permearam a educação de Maria é quem vence sem riscos sobe no pódio sem louvor.

Retirado do livro de Augusto Cury Maria, a maior educadora da História