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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Ficar limpo não é fácil, nem difícil, é possível...



Não existe uma formula para se recuperar. Cada adicto tem que passar pelos seu processo de crescimento individual.

Embora a adicção seja uma doença progressiva, incurável e fatal, o grau da doença e o ritmo da recuperação, varia de pessoa para pessoa.

Preciso praticar o programa de 12 passos em sua essência, pois sei muito bem onde a adicção me levou.

Só eu sei os perigos que vivi, os caminhos que percorri. Quantas coisas fui capaz de fazer, quantas pessoas pude machucar, o quanto me feri, por mais uma dose.

Cheguei ao ponto de me perguntar que tipo de monstro eu havia me tornado, para agir daquela forma comigo, e com as pessoas que me amavam. Felizmente, em recuperação, descobri que eu não era nenhum bicho de 58 cabeças. Eu era apenas uma adicta, que fazia qualquer coisa para me manter fora da minha realidade.

Tudo ficou mais claro para mim, quando descobri que a adicção era uma doença, progressiva, incurável, e fatal que matava desmoralizando. E, que não era aquela ultima dose que me arrebentava, mas sim a primeira.

Descobri que eu sofria de uma espécie de alergia mortal as drogas, e que elas, por mais alto que me levassem no início do uso, mas para baixo ela me deixavam na volta.

Percebi que eu não tinha mais condições de viver alternado entre estágios de euforia antes do uso, e depressão profunda, depois que tudo terminava.

Sei que ainda tenho uma longa estrada de recuperação para percorrer e vou percorrer, mesmo que não seja fácil. Eu quero e preciso vivenciar isso.

A adicção é uma doença que come pelas beiradas. Ela conhece os meus pontos fracos. Posso até ir mais além, e dizer que ela anda, pensa e fala dentro de mim.
Sei que é difícil para alguém que nunca usou drogas entender o que se passa na cabeça de um adicto. É complicado até mesmo para eu mesma compreender. É muita informação a ser processada para alguém que tem tantas sequelas,rs.

O pouco que consegui descobrir sobre está doença, está me ajudando a me recuperar a múltiplos anos, só por hoje.

No início da minha recuperação a vida me parecia insuportável. Tudo era muito novo. Eu sentia muita raiva. Brigava com as pessoas, como se elas tivessem culpa dos meus fracassos. Como se elas fossem responsáveis por eu estar tão vulnerável e perdida. Para melhorar o meu humor e trabalhar a raiva, eu me questionava pensando: Quem mandou você usar droga, Darléa? Agora, aguente o rojão sem descontar a sua raiva na humanidade!

Eu achava que seria impossível viver sem as drogas. As coisas me pareciam assustadoras e estranhas, mas eu tinha que recomeçar.

Eu me sentia sozinha. Em um mundo completamente novo, eu era o retrato da insegurança. Precisava literalmente reaprender a viver.

Embora estivesse rodeada de pessoas que torciam por mim, e pela minha recuperação, ainda assim, me faltava algo e sempre recorria a um poder superior para me amparar. Eu só sabia que teria que continuar tentando. Minha vida dependia disso.

Tive que lidar com o vazio e o buraco que a droga me deixou como herança.
Era um medo assustador de encarar toda aquela vida que abandonei durante o uso.

Tudo ainda me lembrava droga. Banheiros, sal espalhado na pia da cozinha, acetona, pessoas, lugares, coisas, pensamentos, sentimentos. Conversas curtas ou longas sobre drogas. Ah, como eu queria nunca ter ido a primeira dose. Mas, não tinha jeito, eu tinha que aprender a reformular meus hábitos, e esperar passar a vontade de usar.

O mais engraçado é que antes da recuperação, eu nunca tinha esperado a obsessão do uso passar. Eu sempre atendia seu chamado, por achar que aqueles minutos de desejo incontrolável, não passaria naturalmente, nem através do esforço.

Em recuperação, aprendi que esses momentos de obsessão não duram mais do que alguns minutos. É verdade!

Fui ficando limpa, sem muito entusiasmo. Não conseguia imaginar a chatice que seria ter que lidar com a condição de nunca mais poder tomar aquele chopinho, ou usar qualquer coisa que alterasse meu humor. Fui pega pelo programa de 12 passos, e fiquei sem argumentos, justamente na parte em que ele me dizia: Darléa, você não tem que usar só por hoje!A vontade de usar, vai passar. Como assim? Pensava eu. É bem simples, fique limpa um minuto, uma hora, um dia por vez. 

Os dias se transformarão em meses e os meses em anos...respondeu o programa de recuperação. Aí sim, a abstinência começou a ficar mais leve e comecei a acreditar, que de fato poderia funcionar , e vem funcionado.

No início da recuperação, era um fardo muito pesado pensar que o mundo se divertia usando, e eu não. A melhor coisa que eu fiz, foi ter me dado a oportunidade de me permitir ficar limpa e experimentar essa nova maneira de viver.

Ah... Como foi bom, perceber que nem todo mundo usa droga. Que é possível se recuperar, viver bem, saudavelmente e ser feliz, estando limpa.

No início, não foi fácil, tive que construir um alicerce de recuperação. Precisei me prontificar a fazer certas coisas que me permitiriam, lá na frente desfrutar de uma liberdade antes nunca imaginada. Evitei pessoas da ativa. Na verdade, essas pessoas nunca me ajudaram. Cada um sempre cuidou de si, e eu, precisava me cuidar também.

Quando eu os via na rua, apressava o passo e dizia que eu estava atrasada para algum compromisso. Na verdade, eu não tinha que dar satisfações a ninguém por não estar usando. Quando eu achava que não tinha que dar satisfações não dava, só mandava um seco xauzinho, de longe. Ninguém precisava saber o motivo da minha mudança, eu sabia, e isso era suficiente.

Para me recuperar, precisei abrir mão das noitadas e dos lugares que costumava frequentar.

Eu ainda me sentia muito vulnerável, confusa e pouco convicta do que queria, para me testar na pista.

Eu precisava sair de circulação naquele momento para me fortalecer espiritualmente.

Por mais que possamos achar que madrugada, bares e casas noturnas não interferirão em nada em nossa recuperação, interferirá sim. Lá, tem tudo que a minha doença gosta. Bebida, luxúria, conversa fiada e droga.

Como posso, com pouco tempo limpa, me iludir afirmando que já posso estar na noite? Auto engano!

Início de recuperação, foi para mim um processo doloroso. Mas, foi preciso passar por toda aquela privação, para que hoje eu tenha o privilégio de sair, curtir a vida e os prazeres que ela oferece, sem usar droga. Eu vou a praia, e a outros eventos e não os associo mais com droga.

Venho conhecendo meus limites, a cada dia. Vou a shows, me divirto, danço agarrada a minha garrafa de água mineral, e te garanto que é a maior onda. Ninguém entende nada quando me vê dançando...Devem pensar que dentro da garrafa, que seguro em minhas mãos, tem algo mais do que água mineral. Devem pensar que eu não estou pura, rs. Nem ligo...

Eu sei que preço da minha liberdade é a minha eterna vigilância. Sei muito bem quantas noites senti vontade de zuar, e sabia que não estava preparada.

Ainda hoje, tenho certas regras que me imponho para sair de casa. Se eu não estiver bem, não saio. Se sair e me sentir inadequada em determinado lugar, vou embora na mesma hora. Não vou ficar esperando acontecer algo de ruim para me render. Outros dias virão, e poderei me divertir muito, se me encontrar em um estado emocional estável.

Muitas vezes, vi pessoas bebendo e me sentia uma merda. Eu pensava que eles eram felizes, e eu não. Pura manipulação da doença.

Será que eles são tão felizes assim como a doença me mostra?Bem, não sei... Mas, eles podem usar, eu não. Eles vão embora para suas casas, para seus compromissos, para suas famílias, e eu não... Eles não gastam tudo que tem.

 Não vendem as próprias roupas, estudam, trabalham... Não convertem ouro em drogas. Suas vidas seguem quando suas doses terminam, e a minha, fica estagnada. E, pior, regride a cada dose.

Eles não chegam em casa sujos fedorentos, famintos, exaustos, depressivos e moribundos.

Eles podem usar, quem não pode sou eu.

O mundo não vai parar por que eu não posso usar. A vida simplesmente segue.

O Zeca pagodinho não vai parar de cantar, o boteco não vai fechar, só por que eu sou uma adicta. Eu é que tenho que me adaptar a condição de me resguardar de mim mesma, e das coisas que me remetem ao uso.

Sou sim, uma pessoa diferente e limitada, mas nem por isso, infeliz.
Já fiz bobagens para esta e para próxima reencarnação. Não tenho mais que lutar contra nada, tenho que me condicionar a viver limpa, é o mais sensato a fazer.

Seguem abaixo algumas das muitas sugestões que recebi, e funcionaram:

* EVITE : *PRIMEIRA DOSE DE QUALQUER DROGA * PESSOAS, LUGARES E HÁBITOS DA ATIVA. *MEDO *RAIVA *RESSENTIMENTO *AUTO-ENGANO *ACHAR QUE SABE TUDO *MANIPULAR *MENTIR *FOME

PROCURE: *PROGRAMA DE 12 PASSOS *MENTE ABERTA *HONESTIDADE *BOA VONTADE *PODER SUPERIOR *AMAR-SE *AMAR *PERDOAR *PERDOAR-SE *AUTO ACEITAÇÃO *PEDIR AJUDA *ACEITAR AJUDA *VALORIZAR-SE *PERSEVERAR

Ficar limpo não é fácil, nem difícil, é possível!

O mais será acrescentado se você apenas se prontificar a mudar.
Vá a uma reunião de 12 passos, ainda hoje. Dê o seu primeiro passo em direção a liberdade!

 Retirado do blog http://soporhojenuncamais.blogspot.com de Darléa Zacharias

4 comentários:

Darléa Zacharias disse...

Nossa, como este texto me ajuda! E olha que fui eu que o escrevi,rs.
É maravilhosa esta minha percepção da realidade. Que bom que tenho o primeiro passo bem resolvido em minha vida.

Obrigada Xênia, um abraço muito carinhoso para ti!

Luisa disse...

Texto simples, direto e realista. Muito edificante!

Xênia da Matta disse...

Obrigada pela participação. Beijo

Xênia da Matta disse...

Obrigada pela participação. Beijo