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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A força dos sentimentos - ( Maria Cristina Milred)



Sentimentos versus Comportamentos

Muitas vezes podemos nos livrar de comportamentos negativos e até sintomas simplesmente deixando nossos sentimentos se expressare livremente. Isto deveria ser automático mas as pessoas sentem-se culpadas pelos sentimentos chamados “negativos” e bloqueiam sua percepção.

Suponhamos que eu dissesse: “Sinto-me culpada por gostar da cor vermelha e não amarela”. Todos ficariam surpresos porque gostar ou não de uma cor é aceito pela sociedade. Mas se eu disser: “Não gosto de fulano” já não teria a mesma aprovação geral. Porque, se ambos são expressões , de gostar ou não? Simplesmente porque no segundo caso existe um juízo de valor: Não é bom não gostar de alguém (ou pelo menos falar sobre isso).

Porém, nós não deveríamos nos sentir culpados pelos nossos sentimentos. Eles existem como parte de nós e devemos aceitá-los como aceitamos nossa altura ou que não temos habilidade para desenhar.

Quando a pessoa aceita realmente seus sentimentos, não precisa desperdiçar preciosa energia psicológica para bloqueá-los, energia que poderia, então, utilizar de um modo mais produtivo.

Eu posso ouvir a resposta de vocês: “Não dá para aceitar os sentimentos negativos, assim a sociedade seria um caos, todo mundo brigando com todo mundo...”

Pelo contrário, se todos nós aceitássemos nossos sentimentos, o relacionamento social e toda nossa vida melhorariam muito, porque não devemos confundir sentimentos com comportamento.

Eu devo aceitar todos meus sentimentos, mas não os comportamentos provocados por eles. Essa diferenciação é muito importante e é básica no nosso caminho de autoconhecimento. Os sentimentos são uma parte fundamental de nós e querem se manifestar. Se são bloqueados, vão se acumular e criar uma pressão psicológica cada vez maior até serem expressos muitas vezes de formas violentas, que poderiam ter sido prevenidas.

Em psicologia, como em física, “nada se perde, tudo se transforma”.Se eu não aceitar meus sentimentos normalmente, eles vão se manifestar através de sintomas e até doenças psicossomáticas. Pelo contrário, se eu tomar consciência desses sentimentos “negativos” (tristeza, raiva, frustração) e aceitá-los como parte da minha personalidade nesse momento, vou poder lidar com eles de um modo muito mais amadurecido.

Porque estou enfatizando “nesse momento”? Porque, apesar do medo que as pessoas têm geralmente para aceitar esses sentimentos, eles não são eternos. Normalmente, são reações a estímulos externos e se não os bloquearmos, vão se expressar de um modo adequado e desaparecer sem traumas.

Mas se nós não aceitamos esses sentimentos, eles não desaparecem, ficam dentro de nós, esperando pelo momento de serem extravasados de forma mais violenta, ou então, disfarçadamente, através dos sintomas.


Condicionamento de sintomas

Suponhamos que você está zangado com um amigo, discute com ele e sem querer, bate o braço na mesa. Depois das explicações de seu amigo, você se acalma e os dois voltam a estar bem...mas o braço continua doendo.
Porque a dor continua, se ela começou por você estar exaltado e agora já esta calmo? Porque você entrou na área física e ela tem suas próprias regras que devem ser respeitadas.

Assim, apesar da dor ter começado por um motivo psicológico (a discussão) agora é um elemento físico, que vai seguir suas próprias leis. Esse é o motivo pelo qual muitas vezes, só saber a causa de um problema psicológico ou de um sintoma, não é suficiente para acabar com ele. (É também de onde vem o descrédito para as terapias longas que parecem não ter efeito algum).
O que acontece e que o corpo “decora” um tipo de reação perante os problemas, e quanto mais se repete esse padrão de comportamento, mais difícil é modificá-lo. Por isso é tão importante prevenir esses comportamentos negativos e não deixar que eles se determinem as suas reações.

Você repetiu muitas vezes as tabuadas como criança até conseguir memorizá-las e hoje sua lembrança é automática. Do mesmo modo, o corpo “aprende” a reagir perante os estímulos. Por exemplo, você reage com taquicardia ao enfrentar uma situação que o atemoriza, e quanto mais se repete esse conjunto: situação mais taquicardia, o condicionamento se torna mais forte e mais difícil de neutralizar.

Por isso, quanto mais tempo passa, o condicionamento é mais difícil de desaparecer, e vai contaminando até situações parecidas, que começam então, provocar a mesma taquicardia.

Como exemplo de condicionamento podemos analisar o caso da Margarida. Ela veio no consultório porque não conseguia mais guiar. Após ter recebido sua carteira de motorista aos 20 anos, começou guiar, sempre com muito medo do trânsito mas se locomovendo normalmente.

Um dia presenciou uma batida muito forte em um túnel e a partir desse momento, começou a ter uma certa apreensão e evitar os túneis porque eles provocavam um batimento exagerado do coração e uma forte sensação de medo.

A Margarida tentou não dar importância a esses sentimentos até que começou sentir o medo não só nos túneis mas cada vez que ia começar a guiar. No fim, eles se tornaram tão fortes que só de pensar em guiar, tinha taquicardia e sensação de tontura até que ela desistiu completamente de guiar.

Ainda assim, evitar passivamente a situação que provocava esses sentimentos não resolveu o problema porque seu organismo começou a reagir com as mesmas sensações perante qualquer situação um pouco diferente das que ela estava acostumada, até fazer com que a Margarida procurasse ajuda psicológica.

Este é um caso típico de reação fóbica a um estímulo real (a batida) mas muitas vezes a causa do sintoma é bem menos compreensível; por isso é tão importante analisarmos os sentimentos que estão presentes quando aparece o sintoma para evitar os condicionamentos negativos.



Condicionamentos negativos

Como sempre, um exemplo real vai mostrar este processo com claridade: Em uma ocasião, uma menina de doze anos, Adriana, foi trazida pelos pais, porque ela tinha sido assaltada enquanto voltava a casa da escola, bem perto da sua residência, e estava apresentando uma série de problemas.

Como foi um episódio violento, com o assaltante brandindo um revólver e ameaçando matá-la, Adriana sofreu um trauma muito grande e sua reação foi de um medo contínuo, que não a deixava mais sair de casa sozinha.

Essa situação foi piorando ao extremo que após três semanas não queria sair nem na companhia dos pais, perdendo então aulas na escola e, em geral, limitando muito sua vida e a de toda a família. Foi nesse momento que os pais a trouxeram com grande esforço e eu tive a oportunidade de resolver o problema só em uma sessão. Milagre?

Claro que não! Felizmente Adriana não tinha tido muito tempo para condicionar o comportamento de fuga e, por esse motivo, as sugestões positivas tiveram um efeito imediato.
Como foi conseguido? Simplesmente a estimulando para fazer exatamente o que toda a família estava tentando evitar: que ela mentalizasse de novo a situação do assalto, deixando vir todas as emoções de medo, impotência, raiva, que tinham sido reprimidas.

Apesar das resistências da Adriana, eu a estimulei para ela primeiro sentir e logo identificar suas emoções. Após a primeira parte, do “choque emocional”, ela conseguiu falar sobre cada uma dessas emoções e vê-las como reações normais à situação.

Na segunda parte, nós analisamos a diferença entre essas emoções e o comportamento de fuga que elas estavam provocando. 
Nesse momento, Adriana percebeu a energia que estava dentro dela, provocando esses comportamentos de fuga, e pode então, direcionar toda essa força para mentalizar comportamentos positivos, como se ver caminhando novamente sozinha. Ela conseguiu diferenciar entre os sentimentos de medo e os  comportamentos negativos que estavam sendo condicionados um pouquinho mais cada dia.

Como esses comportamentos negativos ainda não tinham tido tempo de se estruturar, foi mais fácil para ela se livrar deles em uma única sessão.

Infelizmente, na maioria dos casos as pessoas deixam passar muito tempo entre o começo do sintoma e a procura de uma solução, inclusive porque o comportamento (neste caso de fuga) parece uma reação natural ao acontecido. Porem, nós deveríamos aprender a aceitar o sentimento de medo, mas não o comportamento de fuga, que vai terminar nos prejudicando muito mais.

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