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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Desterrados de si mesmos





A cena inicial do filme O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias é de singular beleza. Forte e leve ao mesmo tempo, ela descreve perfeitamente as agruras de um militante de esquerda em situação de clandestinidade em meados dos anos 70.

Daniel e Bia (Simone Spoladore e Eduardo Moreira, respectivamente) são os pais de Mauro (Michael Joelsas), um garoto de 12 anos. Em função de serem militantes clandestinos, os pais são perseguidos pelos órgãos de repressão da ditadura militar e são obrigados a deixar o filho na casa da avó. O momento em que Mauro olha para o fusca azul que se afasta, deixando-o na calçada com os olhos marejados e com o coração repleto de insegurança, tendo ao fundo a belíssima trilha sonora composta por Beto Villares, é uma das cenas mais bonitas do cinema nacional.

A situação de clandestinidade exigia o abandono de antigas relações familiares e sociais e, em seu lugar, novas relações eram adotadas, uma vez que se trocavam nomes, se mudavam aparências e, em muitos casos, se criavam novos documentos de identidade. Os clandestinos afastavam-se de seus familiares e amigos de profissão. Deixavam suas casas, seus bens, suas roupas. Ou seja: os militantes em situação de clandestinidade passaram a levar, num primeiro momento, uma vida de militância invisível. Sua sobrevivência estava diretamente ligada ao poder de invisibilidade de sua militância política.

Para sustentar essa atuação política invisível, os militantes clandestinos tiveram que montar uma nova rede de sociabilidades que lhes permitisse certa mobilidade de ações. Em sua grande maioria, essa rede era composta por outros militantes em situação de clandestinidade, o que aumentava mais ainda a tensão existente.

Uma característica muito interessante para a sustentação de uma rede de sociabilidades clandestina é o controle necessário sobre a mesma. Ela não pode ser muito pequena a ponto de não expressar capacidade de mobilização, mas também não pode ser muito grande a ponto de representar um risco para a segurança do militante e da própria organização. Seu sucesso e seu fracasso dependem do mesmo fator, portanto, sua agilidade.

Esses militantes em rede dependiam de outro fator fundamental para sua sobrevivência: capacidade para ocupar os espaços a eles destinados no jogo político a que se propunham. Trilhar os itinerários políticos de forma a conseguirem expressar suas ideias era determinante para justificar a existência da própria clandestinidade. Entretanto, esses itinerários não eram determinados exclusivamente pelos militantes ou suas organizações. Em alguns casos, eram levados a se deslocar para esse ou aquele lugar. Nesses deslocamentos eram considerados os objetivos que desejavam alcançar. Compreender a racionalidade que neles se observa é avançar na compreensão dos fatores determinantes para as escolhas políticas de seus atores.

Montando e sustentando essa rede de sociabilidades alternativa, trilhando trajetórias geográficas e ideológicas, os militantes de esquerda em situação de clandestinidade foram debatendo idéias, pontos de vista, produzindo documentos que expressavam suas interpretações do momento político brasileiro.

A condição de militante clandestino era, por tudo que se afirmou acima, uma tentativa radical de manter vivo o desejo de restituir a democracia no Brasil. Exigia inúmeros sacrifícios; o mais difícil de todos era, sem nenhuma sombra de dúvidas, superar o desterro de si mesmo.

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